segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Salve Geral, os ataques do P. C. C.!




Acabei de assistir ao filme "Salve Geral", do diretor Sérgio Rezende, que aborda os ataques de uma facção criminosa em maio de 2.006, os quais pararam e aterrorizaram a cidade de São Paulo, através de atentados, mortes e vandalismos; e faço algumas considerações. Trata-se de um bom filme, o qual transmite mensagens importantes ao longo do desenrolar da trama, além do talento da ótima atriz Andréa Beltrão. A polêmica reservada à película fica por conta da versão relatada pelo autor sobre o suposto acordo entre criminosos e a cúpula do governo do estado de São Paulo para que os atentados cessassem. Permito-me dar minha opinião sobre o caso, visto que escrevi um dos capítulos do meu livro "Os execrados da av. Zaki Narchi" no mesmo ano desses acontecimentos, em condições traumáticas, e o reproduzo abaixo para pertinentes reflexões. Acrescento para quem viu, ou pretender assitir ao filme, algumas curisidades. O "Professor", personagem do filme, inspirado no líder mais famoso e midiático da facção criminosa, está vivo e representa na realidade as três personalidades abordadas pelo autor: sanguinário como "Pedrão", calculista como "Chico" e carismático como o próprio "Professor", e continua com muito poder. O roteiro é bom, mas a linguagem do cinema ainda - e acho que nem tem essa intenção - não consegue transmitir literalmente o terror de certos temas melindrosos como esse. No mais, fica as lembranças irremediáveis de quem viveu esse trágico fato. Eis o capítulo...    



OS ATAQUES DO P.C.C.



Nessa manhã de sábado em especial, fazia um calor escaldante, com um clima atípico para a cidade de São Paulo. Um sol muito intenso iluminava um céu sem nuvens, remetendo à idéia de um dia perfeito para quem estivesse em liberdade, mas indiferente para os enclausurados do presídio. Ao mergulhar a concha de alumínio na “boqueta” para apanhar um punhado de leite e jogá-lo na caneca de plástico com café até a metade, ouvi uma pilhéria de um interno racista referindo-se a uma suposta reverência que prestava a um detento negro, por tratar-se do dia 13 de maio. Como um afro-descendente razoavelmente politizado, prefiro comemorar o dia 20 de novembro, dia nacional da consciência negra e aniversário da morte do líder negro “Zumbi dos Palmares”, do que a data oficial da abolição da escravatura criada pelos brancos. Porém, a alusão a esse tema, naquele ambiente cerrado por grades e arames farpados foi chocante, e a sensação devastadora. Relembrar o flagelo de negros africanos acorrentados e subjugados estando em condições similares foi algo aterrador. A percepção de impotência aumentou demasiadamente, e por uns instantes senti-me totalmente desassistido, estando segregado, longe de minha gente, sem ter sido submetido a julgamento. Em pensamento, clamava por minha alforria daquela senzala neo-liberal, e quando me refazia e tentava relevar o sofrimento, um enorme burburinho tomou conta do P. E. P. C. (Presídio Especial da Polícia Civil). A maioria dos internos encontrava-se no pátio de convívio, maquiando a feia estrutura para o dia seguinte, “Dia das mães”, quando veio a notícia da série de rebeliões em penitenciárias e ataques iniciados na noite anterior por um facção criminosa criada no sistema penitenciário do estado de São Paulo. Em meio às imprecisões das notícias que chegavam, de fatos tão inusitados, que davam conta que integrantes de tal grupo criminoso estavam cometendo atentados contra policiais, agentes penitenciários e seus familiares, as reações dos presos do P. E. P. C. foram das mais diversas. Alguns revoltados apoiavam as iniciativas dos marginais, dizendo:


- “Eu não sou mais polícia, eu apóio os ‘irmãos’ de cárcere, viu”! Outros, desesperados, temiam por seus familiares, agora sem a proteção do seu braço armado e a mercê de bandidos. Uns, de sabida interação com a quadrilha em questão, foram alvos de chacota e de pedidos irônicos:


- “Você que é ‘envolvido’, pede para os irmãos não atacarem minha família...” E o caos e a apreensão tomou conta do presídio, que transformou-se numa central de notícias; oficiais (através da imprensa), e reais (com relatos full time de policiais conhecidos que estavam nas ruas). Por volta de 11:00h, uma barricada, com cavaletes e viaturas policiais fechando metade da pista da av. Zacki Nark, foi montada defronte o presídio. Por ordens superiores, todos os prédios da Polícia Civil deveriam ser “blindados” contra possíveis ataques do P.C.C. (Primeiro Comando da Capital), e até o P.E.P.C. - a poucos metros do D.E.I.C. - foi protegido, para espanto geral. Porém, a surpresa da população carcerária em ter sido lembrada logo se dissipou, com o levante da barricada algumas horas depois da iniciativa. No “clero” (grupo de presos evangélicos tratados pelos demais detentos ironicamente por esta alcunha), uma discussão acalorada se arrastou por dias, por conta de um evangélico que passou a dormir no “sarcófago” (espaço embaixo de sua cama), por temer ser atingido por eventual ataque da facção rebelada. Contra o inconformismo de seus pares, que diziam que o mesmo era um homem de pouca fé, o apavorado crente repetia:


- “Está na bíblia, vocês é que não querem ver: ‘orai e vigiai, orai e vigiai’”, permanecendo durante dias espremido entre as ferragens da estrutura inferior de seu beliche. Os funcionários do presídio apresentavam feições carregadas em seus rostos; os religiosos (evangélicos e espíritas) suspenderam suas atividades naquela semana; e até a “Delegada Marília” deixou de comparecer a dois encontros semanais, tendo de agüentar as inevitáveis piadas quando retornou às palestras e, exaltada, repetia uma de suas frases de efeito: “Juiz não é lei, Promotor de Justiça não é lei, Delegado de Polícia não é lei, vocês não são a lei, eu não sou lei: todos temos que respeitar a lei.” Sendo interpelada por um interno que, em tom de zombaria, lhe indagou: “Delegada, e o ‘Marcola’ é lei? Em referência ao líder da quadrilha de delinqüentes que assombrava São Paulo, e por conseqüência, a fez faltar em duas de suas aulas semanais. O pátio de convívio do presídio, no dia de visitas comemorativo ao “dia das mães” ficou esvaziado, com poucas reuniões familiares, visto que os presos advertiram seus parentes que era melhor se resguardar em casa, do que enfrentar fila na porta do P. E. P. C., tornando-se possíveis “alvos”.


A facção criminosa Primeiro Comando da Capital, responsável por deixar o estado de São Paulo mais parecendo uma praça de guerra, foi criada dentro de um presídio na cidade de Taubaté/SP, por detentos que alegavam querer reivindicar melhores condições aos encarcerados, redigindo inclusive um estatuto com normas que os presos deveriam seguir. Passados alguns anos, o movimento dos delinqüentes tomou vulto, as condições nas cadeias melhoraram, com menos opressão, e uma relativa ordem entre a massa carcerária se estabeleceu. Porém, há muito tempo o grupo perdeu o suposto motivo que justificaria a sua sofismável existência, passando a ser uma cooperativa regularmente organizada, uma espécie de sindicato do crime, com incrível poder de arrecadar dividendos financeiros oriundos de práticas criminosas e cobranças por eventual segurança dentro dos presídios. Inicialmente, a quadrilha dominou o “universo paralelo” denominado sistema prisional paulista, potencializado por mais de uma década de governo social democrata e sua cultura de abarrotar o estado com penitenciárias e penitentes. Em seguida, extrapolou sua influência e campo de atuação para os criminosos em liberdade e suas comunidades, onde o estado é omisso. Agora, detentor de grande poder econômico e financeiro, a associação de delinqüentes representa uma ameaça efetiva ao seu criador. Com o sistema penitenciário atual, de mera vingança e nenhuma tentativa de ressocialização, fica fácil para a facção criminosa arregimentar membros, e cada vez mais, incha os seus quadros. A “mão-de-obra” necessária para movimentar as engrenagens do P.C.C. é ininterruptamente cedida pela estrutura criada pelo estado policial em detrimento do estado social, ausente e negligente na fonte do problema. Do outro lado, o estado de direito não recupera ninguém, sendo incapaz de “recrutar” o detento, para quando egresso do sistema penitenciário, atuar em prol da sociedade. Esse é o efeito da vingança social aplicada ao infrator, que durante anos sofreu os castigos nas masmorras governamentais e não foi atingido por nenhuma proposta séria de recuperação, encontrando na insipiente organização de um clandestino “comando criminoso”, a segurança e a inclusão que acredita ser a saída para sua vida. O crime não é tão organizado quanto é propagandeado, o estado é que é deveras incompetente para distribuir renda e promover justiça social. Como é possível dominar um exército de pessoas de “má vida”, submetê-los à uma disciplina rígida e à obediência de eventuais líderes que comandam a tudo de dentro dos próprios estabelecimentos criados pelo estado para alojar malfeitores? Como esse colosso em arrecadação pecuniária formou-se entre as estruturas “correcionais” e tomou essa proporção? As respostas à essas indagações sequer esbarraram no razoavelmente coerente, quando ditas pelas dezenas de pseudo especialistas que pululavam nos meios de comunicação à época dos ataques. Para quem trabalhou anos na segurança pública, e agora sentia o gosto amargo do encarceramento, era muito difícil ouvir tantas tolices acerca do complexo tema. Raramente alguém dizia algo que tinha algum nexo, e as tentativas de promoção pessoal multiplicavam-se. Nossa angústia aumentava a cada dia, os ataques e mortes continuavam, e temíamos por nossos familiares. A incompreensão àquela segregação tornou-se inaceitável, minha família vulnerável, eu preso sem julgamento e o estado - que já sabia da proporção da facção criminosa - libera de uma só vez um “exército” de mais de dez mil detentos para a saída provisória de “dia das mães”, alguns inclusive foram detidos posteriormente praticando ataques contra o patrimônio e contra a vida. Durante todo o dia ouvíamos sirenes de viaturas policiais que passavam próximas ao P. E. P. C., e as notícias negativas se sucediam.


Após muita angústia e apreensão, a revolta foi debelada, as mortes e prejuízos contabilizados e muitas versões obscuras para o ocorrido divulgadas. Entre os policiais e ex-policiais presos no P. E. P. C., há pessoas de toda parte do estado, e que já trabalharam em todos os setores da Polícia Civil, e grande parte mantém contato regular com os “funcionários da ativa”, redundando numa “rede de informações” que não vale à pena desprezar. As versões para os ataques do P.C.C. transitaram entre as mais fantasiosas e às mais próximas do sentido lógico. A oficiosa versão do P.E.P.C. divagava que após algumas transferências de presos filiados à facção criminosa P.C.C. para penitenciárias do mesmo estado; o corte de regalias que detentos dessa quadrilha mantinham no sistema prisional e a intrigante condução do líder “Marcola” às dependências do D.E.I.C., os líderes resolveram “decretar” os ataques, rebelando os encarcerados e destruindo as instalações dos presídios; e utilizando sua influência sobre os asseclas em liberdade, para promover atentados contra bases policiais, agências bancárias e ônibus das empresas do transporte público, além de homicídios contra policiais. A determinação de agressões às bases policiais e às agências bancárias se explicam até para pessoas que não pertencem aos quadros policiais, se observarem a “lógica” dos delinqüentes, e o frágil caráter revolucionário que motivou a criação do grupo; mas a depredação aos ônibus do transporte público necessita da lembrança de que boa parte da frota concorrente dessas empresas, o transporte público alternativo (peruas), são de propriedade de criminosos, os quais após amealhar algum ganho com um delito criminoso bem sucedido, têm preferência por este investimento, cujas concessões conquistam através da coação. As mortes de civis inocentes que foram vitimados nos ataques, foram motivadas pela extremada falta de controle dos sectários do “partido do crime” que contraíram dívidas e não tinham como saldá-las, sendo obrigados a executar as ordens da cúpula, e quase sempre drogados, cometiam as atrocidades que todo o mundo assistiu através da mídia na tentativa de efetuar sua “missão”. Os policiais à serem atacados, estavam devidamente listados pela liderança da quadrilha, porém, com o vulto que o levante tomou, foi determinado que qualquer um valeria “ponto” para os executores. Mas, muito oportunismo aconteceu em meio à violência generalizada, com “acertos de contas” mais improváveis realizados sob o álibi do terrorismo instituído pelo P.C.C. Ainda segundo a versão dos detentos do Presídio Especial da Polícia Civil tudo foi amenizado apenas após um “acordo” entre governantes e criminosos, onde o governo do estado cederia à algumas reivindicações dos delinqüentes rebelados, e, em troca, os líderes da facção determinariam o fim dos ataques. Coincidentemente após essa informação correr “à boca pequena” entre as muralhas do P.E.P.C., a normalidade voltou no estado de São Paulo. E o questionamento que mais me atormentava continuou sem resposta: Qual a lógica desse atual sistema penitenciário meramente expiatório?


Uma série de medidas mirabolantes para acabar com as organizações que foram criadas dentro dos presídios foram anunciadas, nada de efetivo foi feito, e o poder financeiro e operacional do P.C.C. multiplicou. A fonte de “mão-de-obra” para o crime está em pleno funcionamento. A riqueza produzida no país continua concentrada na mão de poucos, o estado continua omisso socialmente, as periferias seguem sem estrutura básica, mentes juvenis continuam sendo bombardeadas pela desmedida publicidade de produtos fúteis e inacessíveis, o estado cada vez mais repressivo, as atitudes cotidianas cada vez mais segregadoras, as cadeias superlotadas, as instituições oficiais cada vez mais distantes dos marginalizados... O horizonte não proporciona vislumbrar dias de tranqüilidade frente a tantas desigualdades e injustiças, e torna-se oportuno parafrasear o rapper Mano Brown, do grupo “Racionais MC’s”, quando o mesmo reflete em uma de suas músicas: “...você sabe o que é frustração? É máquina de fazer vilão!”

terça-feira, 29 de setembro de 2009

PEC dos vereadores


(suplente de vereador reza durante votação da PEC)


Este homem da fota acima, vestido formalmente, em posição cristã-ocidental, instropectivo em seu agradecimento, estampando uma alegria incontida, é um suplente de vereador de uma comarca qualquer. Encontra-se na ocasião em pleno Congresso Nacional, e sua indisfarçável euforia explica-se pela aprovação da impopular "PEC (projeto de emenda constitucional, instrumento pelo qual altera-se a Constituição do Brasil em assuntos não classificados como cláusulas pétreas, imutáveis) dos vereadores". Pressume-se que sempre que a carta magna de um país for alterada; modificada; mexida ou habilmente violada - o que deveria ocorrer raramente - fosse em explícito, comprovado e irrefutável benefício da sociedade, e, em consequência, do cidadão comum. Evidentemente, não é  caso desse arranjo amparado em crescimento demográfico, o qual catastroficamente irá onerar os cofres públicos já tão usurpados. Muitas cidades brasileiras irão "ganhar" novos vereadores com tal aprovação. Hipócritas oportunistas vão dizer frente aos holofotes, que o número atual de vereadores, primeiros representantes em contato direto com a "epiderme social", é insuficiente para atender às necessidades dos citadinos. Puro engodo travestido de civilidade! A felicidade desse futuro edil aí da fotografia só se explicaria por um dos  dois supostos motivos: um irremediável êxtase em imaginar os projetos de lei que irá propor em plenário, quando empossado para um cargo que preparou-se muito para exercer abnegadamente em prol de uma parcela de sua comunidade, a qual irá "sentir-se" representada nos próximos anos; ou, uma irresponsável comemoração ao vislumbrar o cargo bem remunerado, que agrega poder ao patrimônio pessoal e financeiro de quem o exerce, com verbas injustificáveis de representação e outras "cosas" impublicáveis. Infelismente, sabemos que eleição transformou-se em "loteria", onde os apostadores marcam seus bilhetes nas urnas já sabendo que irão perder. E oportunistas lançam-se inconsequentemente na aventura excitante , ávidos pelo dinheiro público, com raríssimas exceções. Somente na semana passada filiaram-se a partidos políticos os seguintes nomes: Romário (PSB), o qual declarou estar contente em ingressar no "PSDB"; o "BBB Cléber Bambam", que declarou que o que mais o desagrada em política é a lavagem de dinheiro, já que tem tanta gente precisando; Edmundo (PP); Maguila (PTB); Vampeta (PTB); Popó (PRB); o ator Anfré Gonçalves (PMN); o cantor Sérgio Reis (PR); o cantor uruguaio "Gaúcho da fronteira (PTB)... Ressalto que qualquer cidadão pode e deve (se tiver convicção, boa intenção e coerência) pleitear um cargo político, não pretendo discriminar ninguém, porém, de "boas intenções" maquiando devaneios imorais, já estamos saturados. A atuação do vereador nos dias de hoje é deveras limitada, tanto pela parca matéria sobre a qual é permitido legislar; quanto pelos interesses escusos da maioria. Os Prefeitos, condutores vorazes da "máquina pública", encontram pouquíssima resistência em aprovar seus projetos. Com a "chave" dos cofres públicos nas mãos, formam bases de apoio enormes e desmontam as inconsistentes "oposições", com maneiras - digamos - misteriosas. De certa forma, trata-se da reedição do bi-partidarismo no Brasil, com a base aliada relembrando a antiga ARENA (o partido do sim); e a cambaleante oposição relembrando o MDB (o partido do sim, senhor!). Está difícil sentir a política nos dias atuais, até mesmo por parte dos partidos mais isentos. Um exemplo prático: O Psol - partido que respeito, mas não simpatizo - elegeu uma vereadora combativa e intelectualmente preparada nas eleições de 2004, a qual dentre incontáveis lugares, fez campanha em uma área periférica aqui da cidade de Campinas/SP. A grande maioria das casas em áreas pobres não possui documentação regular, escritura registrada, etc, quando muito, guardam registros de negócios feitos em cartórios impróprios, acreditando ter a posse de documento definitivo e legal. Um pequeno grupo dessa área de favela visitada pela candidata, relatou-me que procurou pela citada vereadora após sua eleição, mas conseguiu falar somente com seu educado assessor, o qual deu explicações plausíveis sobre a "incompetência" para poder solucionar o caso, o qual não era de sua alçada. Indignado, um dos moradoes esbravejou enquanto me relatava o fato: "a vereadora tomou café na minha casa na campanha, e agora não resolve nosso caso". Essas pessoas estão cansadas de explicações, querem ações, e que alguém lhes apontem o caminho e saiba mais sobre suas reais necessidades, além de meras formalidades e discursos vãos. Coincidência ou não, a vereadora não se reelegeu nas eleições seguintes. Um abraço!
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Dia desses, caminhava com a companheira por um Shopping Center de Campinas, quando lembramos da necessidade dela adquirir um compasso para o estudo da Geometria. Dirigimo-nos às papelarias existentes no próprio shopping, para realizar a aquisição. Surpreendentemente, pelo menos para mim, nenhuma delas vendia tal utensílio. Patrícia apelou então para um esquadro, o qual a auxiliaria igualmente na tarefa. Em vão. Transferidor então, nem ouviram falar. Nas paredes das "papelarias" (inclusive uma grande rede) badulaques, futilidades, pequenos minos... Sorte de Gilberto Gil que cantou: "a Bahia já me deu, graças à Deus, régua e compasso..."         

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Sobre dores e amores!



... Algumas pessoas que passaram em minha vida - de importâncias e em circunstâncias diferentes - eram unânimes em ressaltar uma pseudo qualidade: a facilidade em traduzir a vida, essa mesma, pessoal e cotidiana; desvelando tabus familiares; cauterizando feridas; aplacando mágoas indeléveis; explicitando a dor alheia; pontuando "pontos de vista" conflitantes, os quais alicerçam razões equivocadas que acreditamos ter. E, por essas "verdades absolutas", de que nos julgamos portadores, despendemos toda nossa força para sustentá-las, persistindo inconscientemente no erro, perpetuando a malquerença. O poeta indagou em uma de suas canções: "prá onde vai o amor, quando o amor acaba?" E respondeu complacentemente em outra composição: "...amores serão sempre amáveis!" Isso leva-nos a crer na consciência derradeira, em um sentimento superior e final, que - mesmo após fúrias, revanches, insanidades - poupará a consequência inocente do irresponsável ato de nos relacionarmos. Ressalto também, que apesar de outra expressão ser muito usada pelos poetas, a desprezo completamente. O (para mim) paradoxal clichê: "o amor e o ódio se irmanam". O ódio é excludente, frágil, egoísta, covarde e induz ao erro, e quase sempre, atinge somente quem o emana, particularmente, o ignoro! A dor que sinto, cortante, lenta e cotidiana, é a dor que divido com João Caetano. A mesma dor que atinge João Pedro. A que alcança Maria Clara e seu irmão com nome de poeta, o qual nem conheço. A dor que encontra amparo e se estanca nos frágeis ombros de Heitor, que nem sabe que carrega esse nome forte prá suportar e dividir com seu pai - mesmo inconscientemente - tudo o que a vida insiste em machucar lancinantemente, portando-se bravamente, citando o nome de seus irmãos, como se convivesse com os mesmos. Mas, quem irá traduzir a vida e "trazer à luz", espíritos opacos e obscurecidos. O poeta também disse: "... a dor da gente não sai no jornal". Um abraço!
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Patrícia, se eu não te amasse tanto assim, talvez perdesse o sonho dentro de mim, e vivesse na escuridão...  Obrigado!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Política, para mim!

(Suplicy, conversando com moradores da comunidade "Olga Benário")


...tenho grande temor quando vejo a maioria da população jovem do Brasil, ignorando e negligenciando a política, individualizando egoisticamente sua conduta, alienando-se em entretenimentos vazios, assistindo a tudo sem postura crítica, acostumando-se a escândalos e malversação do bem público, com lamentável apatia. Realmente não compreendo quando pessoas descrevem seu perfil no site de relacionamentos "Orkut", no item que questiona sua participação política, assinalando a opção "apolítico" (como se isso fosse possível), orgulhando-se e procurando eximir-se de qualquer culpa pelo mal andamento de nosso país. Admito que é muito difícil não desanimar e capitular frente a tantas más notícias, discursos demagógicos, práticas escusas. Nunca os políticos se pareceram tanto, e é raro destacar matizes que fujam do cinza dos nossos representantes em todas as instâncias. O ateniense Péricles discursou com orgulho aos seus concidadãos, após a guerra do Peloponeso: "Nós somos o único povo a pensar que um homem alheio à vida política, não deve ser considerado como um cidadão tranqüilo, mas como um cidadão inútil".

Escrevi as palavras acima, neste mesmo espaço, em fevereiro de 2008, em um texto intitulado "Política, prá que"? Apoio-me nelas para tentar justificar a recusa em não rabiscar sequer palavra sobre Sarney , crise das casas legislativas, etc... Agradeço aos elogios que chegaram em meu e-mail, agregados à pedidos de pronúncia sobre o tema acima citado. "Sapecar tinta" - expressão usada por um jornalista amigo - e escrever sobre o tema, parece-me redundante no momento. Seria apenas mais um a apontar o óbvio da roubalheira generalizada e herança colonial de usurpação do público pelo privado. Sinto-me mais útil tentando "sentir a política", não esmorrecer e não aliar-me a argumentos ingênuos e irresponsáveis sobre fechamento de casas legislativas, volta de ditaduras e outros desvarios. Prefiro, sinceramente, discutir em nível não especializado e relatar o que percebo como cidadão comum sobre política partidária, partindo de minhas próprias impressões e experiências pessoais. Tento responder para mim, os questionamentos que me chegam, tais como: o que vale à pena em política hoje em dia, para que serve eleições... Possuo um passado de fidelidade às minhas convicções políticas, sempre apoiei, debati e votei no mesmo partido político. Nunca lancei mão do "voto útil" mesmo para evitar que um mal caráter qualquer ganhasse alguma eleição. Mas sinto-me como o amigo, no belíssimo texto publicado por Roberto Barbato Jr., "Homem não chora", em seu blog "Lápis Impreciso":


Lembro-me de ter lido, no início da década de 1990, a entrevista de um jornalista que estava prestes a assumir um cargo público em São Paulo. Seu pai, àquela época já falecido, foi um comunista bastante ativo. Costumava dizer aos filhos (um dos quais, filósofo marxista) que quando alguma coisa estivesse errada, seria preciso olhar em direção ao Kremlin. Um dia, o jornalista resolveu romper com o comunismo. Abandonara as convicções que sempre deram sentido à vida do pai. Ideologicamente, distanciou-se dele e do irmão. Na entrevista, o tal jornalista contou que tivera um sonho bastante significativo a respeito de seu rompimento com as tendências de esquerda: num quarto branco, sóbrio, sem cores, ele levantava o pai pelo colarinho e gritava:- Você me enganou! Você me enganou!O pai, provavelmente ciente de que escolhemos ideologias por afinidades e devemos recusá-las quando desejamos, apenas respondeu:- Homem não chora! Homem não chora! Hoje, quando olho para trás, relembro minhas opções políticas sem arrependimento. Mas, quando vejo que os representantes que ajudei a eleger servem para perpetuar o que há de mais atrasado na política brasileira e ainda reivindicam o monopólio da moralidade pública, confesso que tenho vontade de chorar. É nessas horas que lembro da lição do velho comunista: homem não chora!


Acho esse texto elucidativo o bastante, o que dispensa maiores explicações. Então, voltemos para o que se tornou a política atual depois do fim das ideologias, dos partidos políticos independentes, da fidelidade partidária sem ameaça judicial, das discussões escrupulosas e utópicas, das formações de careteres juvenis, etc. Percebo a política atual como mera troca de interesses escusos; más intenções; aplicação de meios injustificáveis e inaceitáveis para atingir fins, deixando um rastro de sujeira no meio do caminho. Tudo foi nivelado pelo mais rasteiro patamar, dos representantes públicos ao eleitorado. A sensação que posso compartilhar é a de que tudo se individualizou, os membros de nossa comunidade buscam uma recompensa pessoal para cada ato. A contrapartida que cada um exige para qualquer atitude que transpasse os limites de sua residência é egoísta e limitada, uma sociedade de consumo que perdeu o freio e desce ladeira abaixo rumo ao interesse escuso. Nas últimas eleições municipais fui procurado por uma candidata à vereadora que - incensando meu conhecimento político - pediu o meu apoio em sua campanha. Não me fiz de rogado e firmei uma permuta, à moda da política moderna, e pedi subsídios para um projeto social que almejo realizar há tempos, em troca do tal apoio. Andei por todos os bairros da cidade de Campinas, e a experiência foi enriquecedora. Conversei com pessoas de todos os níveis por cerca de quatro meses e atesto que a visão política atual individualizada é desconhecida do público em geral. As pessoas não têm convicções claras de representação política e não se sentem representadas de fato por ninguém. Votam por pequenos mimos; por escracho; para ver alguém pobre e humilde prosperar; por se enganar quanto à trajetória e caráter de postulantes que o marketing político encobre habilmente; por culto à pseudo celebridades; e raramente, por certeza da representação satisfatória. Porém, apesar desses equívocos o povo permanece sábio, e no fim das quase infindáveis e gratificantes conversas eu ouvia o insofismável argumento de que qualquer um que caísse no "ninho de serpentes" das casas legislativas, não teriam força para mudar sozinhos o status quo. Poderia ficar por horas relatando experiências sobre essa empreitada e constatando que, no "acomodar das abóboras" o povo está cansado de engodos, e desgastado demais com tanta decepção. Contudo, particularmente, continuo persistindo, acreditando no imponderável, aliando utopia com coisas concretas, buscando o equilíbrio de forças. Há alguns dias, uma favela da zona sul paulistana foi desapropriada e as famílias foram literalmente jogadas ao relento. O escritor Ferréz iniciou uma luta inglória para viabilizar alento àquelas pessoas (o que pode ser melhor relatado em seu blog, "linkado" aí ao lado), e, buscando todo tipo de ajuda possível, telefonou para o senador Eduardo Suplicy, o qual chegou ao local em 40 minutos, dirigindo um veículo FIAT/DOBLÔ, fazendo os desalojados "sentirem" a política da forma como sinto atualmente. Da única forma que interessa e vale à pena, "lutando contra o Leviatâ", e levando conforto a quem precisa. O resto é desprezível e vil, como todo mundo já conhece. Um abraço!




quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Contadores de histórias



Há poucos dias (exatamente há dez dias) completei os emblemáticos 40 anos de vida, e dentre reflexões, pensamentos, melancolias, agradecimentos e afins, percebi que realmente o espírito torna-se mais maleável com o conhecimento adquirido ao longo dos anos, e as costas calejam, invariavelmente, com as "pancadas da vida". Justamente em meio a esses desvarios, defronte ao painel que indicava as opções de minha arte preferida, resolvi dar uma chance ao "mago", pelo qual nutri uma antipatia intrinsica por anos. Explico, chamou-me a atenção o título do filme "Verônika decide morrer", mas quando li a sinopse e atentei-me para o fato da película ser uma adaptação de um livro do badalado Paulo Coelho, fui acometido por uma "catatonia" instantânea. Recordando a data festiva (40) e o desgastado brocardo: "a vida começa aos quarenta", decidi por de lado um suposto preconceito, ignorar uma intuição inata que repele os oportunistas e relembrar algumas composições que o "alquimista" fez em parceria com o ídolo de sempre Raul Seixas, e aceitei o desafio. Ao final do filme, conclui que se Veronika decidir morrer, realmente morrerá: de tédio. O velho "dom Paulete", como se referiu um dia Raul Seixas ao seu amigo continua o mesmo das colunas sobre fábulas - quase sempre orientais - com seus finais felizes que invariavelmente nos remete ao redundante moral da história... que publica em alguns jornais. Soube ao sair do cinema que este filme foi indicado a uma categoria do Oscar americano (só poderia ser mesmo), e aumentei minha indignação. A obra trata-se de uma armadilha de clichês e más interpretações, atenuados pela beleza da protagonista Sarah Michelle Gellar, que desponta em meio ao feio e evidente lugar comum da previsibilidade. Reflito sobre a quantidade de livros vendidos por Paulo Coelho; do seu sucesso na Europa e Estados Unidos; de sua petulância em postular um lugar na Academia Brasileira de Letras, mas, resigno-me frente aos fatos. Não tem como negligenciar o momento de carência, medo e ignorância pelo qual a sociedade contemporânea atravessa; e à lembrança de que José Sarney assenta seu traseiro em uma das cadeiras da ABL (embasado por seus "Marimbondos de Fogo"), onde já sentou-se Machado de Assis. Também assisti na semana passado ao filme "O contador de Histórias", que aborda a vida de Roberto Carlos Ramos (foto acima), o qual - por uma singela ingenuidade de sua genitora - passou a infância na famigerada FEBEM, e só teve sua tragetória de desventuras e agruras modificada por cruzar - em um momento de sua vida - com a francesa Margherit Duvas, que o alfabetizou e o levou para a França, de onde voltou para ensinar na própria FEBEM, e tornar-se, porteriormente, o maior contador de história do mundo. Esse filme - se comparado ao adaptado do livro do "mago" tinha tudo para cair no oceano de clichês, porém, sobrevive com galardia, e nos oferece uma obra com recursos lúdicos que descrevem com leveza, uma trama tão ácida. Essa, ao meu ver, é a diferença entre contadores de histórias e contos-do-vigário (ou do mago). E saber diferenciá-los (apreciá-los ou repelí-los) vai da ótica e intenção de cada um. No final do filme "Verônica decide morrer" um psiquiátra desvela toda a saturada trama ao revelar que mentiu sobre uma suposta doença terminal que a protagonista acreditava ter. Mentiu para que ela desse o verdadeiro valor a cada dia de sua vida e o vivesse como se fosse o último. Não precisava faltar com a verdade, à moda do mago, para dar o devido valor à vida, bastava mergulhar no universo dos adolescentes da FEBEM, como fez a francesa na vida de Roberto Carlos Ramos, denotando assepcia e dignidade à obra e à própria vida, atitudes tão em falta no nosso cotidiano. Um abraço!





quinta-feira, 9 de julho de 2009

Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia!


Há aproximadamente quinze dias, foi noticiado nos jornais "Correio Popular" e "Diário do Povo" de Campinas/SP o seguinte acontecimento: um morador de rua foi agredido violentamente por um estudante de medicina (o qual estava acompanhado por mais dois amigos e fugiu logo após a covardia, em um veículo AUDI/A3), na saída de um shopping, porque - segundo o próprio agressor, ele não gostou do modo como o pedinte olhou para ele. Posteriormente localizado e encaminhado a uma Delegacia de Polícia, o estudante "esclareceu" que cometeu o ato de selvageria porque aquele mendigo "não acrescentaria nada à sociedade, no futuro", sendo liberado em seguida. Recordo-me de um providencial texto de Marina Colassanti, intitulado "Uma Crônica", o qual nos desperta para o fato de que a gente se acostuma a certos acontecimentos em nossa vida, mas não deveríamos. As reiteradas notícias padronizadas que nos chegam sobre esse tipo de canalhice (do índio Galdino - confundido com um mendigo - queimado em Brasília; à empregada doméstica violentamente espancada no Rio de Janeiro - segundo seus agressores - confundida com uma prostituta), são sempre protagonizadas pelos filhos da classe média alta, motivados pelo mesmo desprezo aos seres humanos menos favorecidos. Assistimos ao noticiário, ficamos estarrecidos por alguns minutos e voltamos ao nossos afazeres, aguardando à próxima novidade macabra. Relegamos a gravidade dos atos cometidos por esses biltres à fatos corriqueiros e continuamos injustos, nos tornando insensíveis. Façamos um exercício de reflexão e desconstrução das notícias frias e superficiais contadas pela grande imprensa sobre esses inaceitáveis crimes cometidos e tratados como "curiosidade", à partir desta agressão ocorrida aqui em Campinas. O referido shopping está instalado em uma área nobre, e é frequentado por pessoas abastadas que tiveram as melhores oportunidades (estudo particular; convênio privado de plano saúde; boa alimentação; segurança pública que funciona...). O estudante agressor frequenta uma faculdade de medicina pública de alta qualidade - onde as pessoas bem nascidas acima citadas têm acesso. Os mais pobres pagam por faculdades privadas de qualidade questionável (comprovadamente inferiores às públicas) e ainda seus impostos, os quais sustentam a universidade pública do playboy. Depois de medicado, apurou-se que o suposto mendigo agredido adentrou a pararia do shopping, consumiu e pagou com cartão de débito, apresentando inclusive ticket comprobatório. Falando um pouco de sua vida afirmou que frequentou até o quarto ano de direito em uma faculdade privada de ensino superior, não a concluíndo por falta de recursos. O beócio estudante de medicina, assim que se formar, certamente trabalhará em hospitais públicos ou em alguma clínica - da profusão de convênios médicos menores - que visam as classes "C" e "D", agora interessantes pelo recente poder de compra adquirido, atendendo justamente a pessoas que - segundo ele - "não acrescentarão nada a sociedade futuramente". O crime de lesão corporal dolosa (a agressão) será apurado pelo Distrito Policial da área, onde cabe outra reflexão. Até alguns anos atrás, Campinas possuía doze distritos policiais, e estudos para a eminente instalação de outros para suprir a carência de segurança pública. Áreas carentes como a região do Jd. São Marcos e do Terminal Campo Grande seriam as próximas beneficiadas pelo governo estadual, existindo até uma frágil iniciativa da instalação de uma delegacia na primeira área citada, mais precisamente no bairro "Recanto da Fortuna", até hoje não concluída. Os mais abastados se "anteciparam" e viabilizaram a instalação do 13o. Distrito Policial no coração da área nobre, a qual inclui o tal shopping, e a casa do playboy agressor, em detrimento da eterna espera dos mais pobres das áreas críticas e violentas. Abstraindo a inconsistência do argumento, e tentando enxergar pelo prisma do descelerado estudante de medicina, ignorando que um mendigo é ser humano, que as pessoas merecem respeito, e outros "ensinamentos" que certamente recebeu de seus pais; imaginemos o mesmo fato invertendo os personagens. O "mendigo" seria execrado publicamente, condenado pela justiça e pela opinião pública, e o fato teria uma repercussão bem maior que a atual. Órgãos de imprensa bradariam que a vilência estaria atingindo níveis alarmantes, que isso não poderia continuar acontecendo, e comandantes da força policial seriam entrevistados. É pertinente citar que a revista "Caros Amigos", do mês de maio/2009, tráz como matéria de capa, uma reportagem sobre "Por que a justiça não pune os ricos" (pág.13). Para auxiliar e enriquecer nosso debate, reproduzo um trecho que explicíta a opinião do juiz criminal Sérgio Mazina sobre o tema: "... a justiça brasileira é constituída para não ser popular. Em sua avaliação, desde a formação da legislação, há uma preocupação muito maior com a preservação patrimonial em detrimento da integridade física. Isso constribui para a criminalização das camadas mais baixas da população, mais propensas - por sua condição social - a cometerem delitos contra o patrimônio. O Código Penal Brasileiro criminaliza a pobreza". Colassanti, ainda diz em seu belo texto: "A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto se acostumar, se perde de si mesma! Um abraço!

domingo, 28 de junho de 2009

Michael


Lembro-me de um trecho do livro "Pergunte a quem conhece", do rapper Thaíde, onde o mesmo relata sua trajetória, e um determinado momento especial que se sucedeu em sua pré-adolescência. Thaíde nos remete a um dia de total letargia onde assistia televisão descompromissadamente em seu barraco, ao lado da família, quando inesperadamente surgiram na tela do humilde televisor, alguns negros americanos dançando uma dança esquisita (break), no programa do jornalista Goulart de Andrade. Desse dia em diante, passou a frequentar a estação do metrô "São Bento" em São Paulo, a imitar os dançarinos e a buscar avidamente mais informações sobre o hip-hop. Nunca mais parou, tornando-se um dos ícones da cultura periférica brasileira. Recordo-me deste fato porque foi de forma muito parecida que tive o mesmo contato inicial com o maior ídolo pop da minha geração. Tudo o que "apreendíamos" era através da televisão, numa remota pré-adolescência no interior paulista. Numa madrugada perdida, ainda criança, assiti a um filme melodramático, sobre a amizade de um garoto com um ratinho, só para ouvir a musica Ben de Michael Jackson. E, anos mais tarde - no início dos anos 80, surge aquele cara cantando afinadamente e dançando de forma surpreendente. Eram tempos pós "Panteras Negras", de uma incipiente fase do genuíno ritmo funk soul, com os concursos de equipes de danças, e posteriormente a chegada do break . Michael, de forma contundente, limpou, lustrou e agregou assepcia àquela irreverente maneira de expressão, transformando os vídeos-clipes (massantes e relegados a 2ª classe de divulgação) à arte final dos discos em vinil recém-lançados. Desde os 8 anos de idade, Michael dirigia seus irmãos na imperdível obra do grupo Jacksons Five, e no auge de sua carreira nos levou ao êxtase com trabalhos como Thriller, Beat it, Billie Jean, etc. Era também o autor da música We are The World, tema de um clip estrelado por vários artistas americanos. Sua obra e seu talento eram incontentáveis, e poderia ficar por horas citando genialidades do cantor, compositor e dançarino - que criava coreografias e não perdia o frescor da música negra contundente e contagiante. Para mim foi uma perda irreparável (não como força de expressão, pois todas as perdas são irreparáveis), mas com convicção de que certas figuras não deveriam sair do nosso meio nunca. Atentem-se para o paradoxo de que certas figuras tachadas como desajustadas, trazem o equilíbrio necessário para a nossa vida em sociedade. Particularmente, até me irritava com algumas declarações de Clodovil Hernandes, mas, em contrapartida, adorava quando ele - às vezes ingenuamente - dizia verdades que não temos coragem de dizer, ainda mais em plenário, como a irrefutável de que Maluf é ladrão. Renato Russo declarou em um momento de maturidade que viver nosso momento cultural era deveras pesado para ele, e nos deixou dezenas de reflexôes em forma de letras musicais. Cazuza levou uma curta, intensa e conturbada vida, e mais nos ajudou do que foi feliz, ao retirar por vezes o manto da hipocrisia que nos cobre e nos abafa. Como não associar os dramas pessoais de Jackson, com a questão do racismo, cruel e excludente, que canalhas não cansam de ignorá-la. A imprensa mundial desconstruiu a imagem do ídolo com inúmeras exposições de sua vida pessoal e suas excentricidades (a famosa bolha onde instalou-se por alguns dias; a tentativa de congelamento; as acusações de pedofilia; a mutilação do próprio corpo; os casamentos; os filhos; etc.), porém, não resvalaram na infância sofrida, na sociedade americana que avassala a vida dos mais sensíveis, que não têm tanta estrutura para suportar. Michael, não gostava de sua imagem, tinha obcessão por embranquecer sua pessoa, e segundo familiares, tinha dificuldade em olhar-se no espelho. Não era louco, e sim vítima de uma cultura de massa que cultua o branco, o clean. Talvez não tivesse a consciência que os anos 80 foram anos difíceis para afro-descendentes, e que sua música contribuiu muito para superá-los, e começar a resistência no início dos 90 com o rap do Racionais, Thaíde e suas consequências. Gilberto Gil cantou: "Bob Marley morreu, porque além de negro era judeu; Michael Jackson ainda resiste, porque além de branco ficou triste!" Não mais, Michael, descanse em paz! Um abraço!