Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia!


Há aproximadamente quinze dias, foi noticiado nos jornais "Correio Popular" e "Diário do Povo" de Campinas/SP o seguinte acontecimento: um morador de rua foi agredido violentamente por um estudante de medicina (o qual estava acompanhado por mais dois amigos e fugiu logo após a covardia, em um veículo AUDI/A3), na saída de um shopping, porque - segundo o próprio agressor, ele não gostou do modo como o pedinte olhou para ele. Posteriormente localizado e encaminhado a uma Delegacia de Polícia, o estudante "esclareceu" que cometeu o ato de selvageria porque aquele mendigo "não acrescentaria nada à sociedade, no futuro", sendo liberado em seguida. Recordo-me de um providencial texto de Marina Colassanti, intitulado "Uma Crônica", o qual nos desperta para o fato de que a gente se acostuma a certos acontecimentos em nossa vida, mas não deveríamos. As reiteradas notícias padronizadas que nos chegam sobre esse tipo de canalhice (do índio Galdino - confundido com um mendigo - queimado em Brasília; à empregada doméstica violentamente espancada no Rio de Janeiro - segundo seus agressores - confundida com uma prostituta), são sempre protagonizadas pelos filhos da classe média alta, motivados pelo mesmo desprezo aos seres humanos menos favorecidos. Assistimos ao noticiário, ficamos estarrecidos por alguns minutos e voltamos ao nossos afazeres, aguardando à próxima novidade macabra. Relegamos a gravidade dos atos cometidos por esses biltres à fatos corriqueiros e continuamos injustos, nos tornando insensíveis. Façamos um exercício de reflexão e desconstrução das notícias frias e superficiais contadas pela grande imprensa sobre esses inaceitáveis crimes cometidos e tratados como "curiosidade", à partir desta agressão ocorrida aqui em Campinas. O referido shopping está instalado em uma área nobre, e é frequentado por pessoas abastadas que tiveram as melhores oportunidades (estudo particular; convênio privado de plano saúde; boa alimentação; segurança pública que funciona...). O estudante agressor frequenta uma faculdade de medicina pública de alta qualidade - onde as pessoas bem nascidas acima citadas têm acesso. Os mais pobres pagam por faculdades privadas de qualidade questionável (comprovadamente inferiores às públicas) e ainda seus impostos, os quais sustentam a universidade pública do playboy. Depois de medicado, apurou-se que o suposto mendigo agredido adentrou a pararia do shopping, consumiu e pagou com cartão de débito, apresentando inclusive ticket comprobatório. Falando um pouco de sua vida afirmou que frequentou até o quarto ano de direito em uma faculdade privada de ensino superior, não a concluíndo por falta de recursos. O beócio estudante de medicina, assim que se formar, certamente trabalhará em hospitais públicos ou em alguma clínica - da profusão de convênios médicos menores - que visam as classes "C" e "D", agora interessantes pelo recente poder de compra adquirido, atendendo justamente a pessoas que - segundo ele - "não acrescentarão nada a sociedade futuramente". O crime de lesão corporal dolosa (a agressão) será apurado pelo Distrito Policial da área, onde cabe outra reflexão. Até alguns anos atrás, Campinas possuía doze distritos policiais, e estudos para a eminente instalação de outros para suprir a carência de segurança pública. Áreas carentes como a região do Jd. São Marcos e do Terminal Campo Grande seriam as próximas beneficiadas pelo governo estadual, existindo até uma frágil iniciativa da instalação de uma delegacia na primeira área citada, mais precisamente no bairro "Recanto da Fortuna", até hoje não concluída. Os mais abastados se "anteciparam" e viabilizaram a instalação do 13o. Distrito Policial no coração da área nobre, a qual inclui o tal shopping, e a casa do playboy agressor, em detrimento da eterna espera dos mais pobres das áreas críticas e violentas. Abstraindo a inconsistência do argumento, e tentando enxergar pelo prisma do descelerado estudante de medicina, ignorando que um mendigo é ser humano, que as pessoas merecem respeito, e outros "ensinamentos" que certamente recebeu de seus pais; imaginemos o mesmo fato invertendo os personagens. O "mendigo" seria execrado publicamente, condenado pela justiça e pela opinião pública, e o fato teria uma repercussão bem maior que a atual. Órgãos de imprensa bradariam que a vilência estaria atingindo níveis alarmantes, que isso não poderia continuar acontecendo, e comandantes da força policial seriam entrevistados. É pertinente citar que a revista "Caros Amigos", do mês de maio/2009, tráz como matéria de capa, uma reportagem sobre "Por que a justiça não pune os ricos" (pág.13). Para auxiliar e enriquecer nosso debate, reproduzo um trecho que explicíta a opinião do juiz criminal Sérgio Mazina sobre o tema: "... a justiça brasileira é constituída para não ser popular. Em sua avaliação, desde a formação da legislação, há uma preocupação muito maior com a preservação patrimonial em detrimento da integridade física. Isso constribui para a criminalização das camadas mais baixas da população, mais propensas - por sua condição social - a cometerem delitos contra o patrimônio. O Código Penal Brasileiro criminaliza a pobreza". Colassanti, ainda diz em seu belo texto: "A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto se acostumar, se perde de si mesma! Um abraço!

Domingo, 28 de Junho de 2009

Michael


Lembro-me de um trecho do livro "Pergunte a quem conhece", do rapper Thaíde, onde o mesmo relata sua trajetória, e um determinado momento especial que se sucedeu em sua pré-adolescência. Thaíde nos remete a um dia de total letargia onde assistia televisão descompromissadamente em seu barraco, ao lado da família, quando inesperadamente surgiram na tela do humilde televisor, alguns negros americanos dançando uma dança esquisita (break), no programa do jornalista Goulart de Andrade. Desse dia em diante, passou a frequentar a estação do metrô "São Bento" em São Paulo, a imitar os dançarinos e a buscar avidamente mais informações sobre o hip-hop. Nunca mais parou, tornando-se um dos ícones da cultura periférica brasileira. Recordo-me deste fato porque foi de forma muito parecida que tive o mesmo contato inicial com o maior ídolo pop da minha geração. Tudo o que "apreendíamos" era através da televisão, numa remota pré-adolescência no interior paulista. Numa madrugada perdida, ainda criança, assiti a um filme melodramático, sobre a amizade de um garoto com um ratinho, só para ouvir a musica Ben de Michael Jackson. E, anos mais tarde - no início dos anos 80, surge aquele cara cantando afinadamente e dançando de forma surpreendente. Eram tempos pós "Panteras Negras", de uma incipiente fase do genuíno ritmo funk soul, com os concursos de equipes de danças, e posteriormente a chegada do break . Michael, de forma contundente, limpou, lustrou e agregou assepcia àquela irreverente maneira de expressão, transformando os vídeos-clipes (massantes e relegados a 2ª classe de divulgação) à arte final dos discos em vinil recém-lançados. Desde os 8 anos de idade, Michael dirigia seus irmãos na imperdível obra do grupo Jacksons Five, e no auge de sua carreira nos levou ao êxtase com trabalhos como Thriller, Beat it, Billie Jean, etc. Era também o autor da música We are The World, tema de um clip estrelado por vários artistas americanos. Sua obra e seu talento eram incontentáveis, e poderia ficar por horas citando genialidades do cantor, compositor e dançarino - que criava coreografias e não perdia o frescor da música negra contundente e contagiante. Para mim foi uma perda irreparável (não como força de expressão, pois todas as perdas são irreparáveis), mas com convicção de que certas figuras não deveriam sair do nosso meio nunca. Atentem-se para o paradoxo de que certas figuras tachadas como desajustadas, trazem o equilíbrio necessário para a nossa vida em sociedade. Particularmente, até me irritava com algumas declarações de Clodovil Hernandes, mas, em contrapartida, adorava quando ele - às vezes ingenuamente - dizia verdades que não temos coragem de dizer, ainda mais em plenário, como a irrefutável de que Maluf é ladrão. Renato Russo declarou em um momento de maturidade que viver nosso momento cultural era deveras pesado para ele, e nos deixou dezenas de reflexôes em forma de letras musicais. Cazuza levou uma curta, intensa e conturbada vida, e mais nos ajudou do que foi feliz, ao retirar por vezes o manto da hipocrisia que nos cobre e nos abafa. Como não associar os dramas pessoais de Jackson, com a questão do racismo, cruel e excludente, que canalhas não cansam de ignorá-la. A imprensa mundial desconstruiu a imagem do ídolo com inúmeras exposições de sua vida pessoal e suas excentricidades (a famosa bolha onde instalou-se por alguns dias; a tentativa de congelamento; as acusações de pedofilia; a mutilação do próprio corpo; os casamentos; os filhos; etc.), porém, não resvalaram na infância sofrida, na sociedade americana que avassala a vida dos mais sensíveis, que não têm tanta estrutura para suportar. Michael, não gostava de sua imagem, tinha obcessão por embranquecer sua pessoa, e segundo familiares, tinha dificuldade em olhar-se no espelho. Não era louco, e sim vítima de uma cultura de massa que cultua o branco, o clean. Talvez não tivesse a consciência que os anos 80 foram anos difíceis para afro-descendentes, e que sua música contribuiu muito para superá-los, e começar a resistência no início dos 90 com o rap do Racionais, Thaíde e suas consequências. Gilberto Gil cantou: "Bob Marley morreu, porque além de negro era judeu; Michael Jackson ainda resiste, porque além de branco ficou triste!" Não mais, Michael, descanse em paz! Um abraço!

Terça-feira, 3 de Março de 2009

Capitães da Areia


Neste final de semana passado, li o livro "Capitães da Areia", do escritor Jorge Amado. Não consegui parar de lê-lo desde as primeiras linhas. É impressionante como essas coisas se repetem em minha vida, sempre que tudo "está que é só escombros", alguma idéia ou boa leitura aparece como por encanto e me arrebata, levando à reflexão. Por mero acaso esse livro veio parar em minhas mãos. Veio através de minha mulher Patrícia, uma legítima "Capitã da Areia", que certamente não tinha a consciência da obra que carregava. Lera apenas as trinta e seis páginas iniciais e dissera-me com convicção: "estou achando esse livro a sua cara". Como não tenho conseguido dormir regularmente, cerrei os sentidos para as maldades cotidianas, para a fome e para a desesperança, e degustei o citado livro até o final, com um inevitável "nó na garganta". Um turbilhão de lembranças me acompanharam durante a leitura, numa estranha catarse. Lembrei-me da infância difícil e rude dos meus pais; das injustiças sociais; do poder infindável das elites e seu aparato para manter tudo obtuso como está, há séculos, nessa nossa iniqua e desleal sociedade. Lembrei-me do terrível percalço que se passou comigo, e de como me fechei para tudo que estava desmoronando (perda de trabalho, de minha casa, de minha dignidade) e escrevi meu livro em seis meses, porque segundo Clarice Lispector: existe o direito ao grito! Lembrei-me da vocação de minha irmã mais velha para a justiça social. De quando ela leu esse mesmo livro, há aproximadamente vinte e cinco anos atrás - o qual deve estar até hoje na estante da casa de meus pais - e ficou radiante, com o ímpeto de querer mudar alguma coisa, com a excitação e alegria que os livros sempre trouxeram a ela.
Não sei explicar o motivo, talvez seja pela comodidade de conhecer sua obra através das adaptações para cinema e televisão ("Gabriela Cravo e Canela"; A morte e a morte de Quincas Berro-D´água"; "Dona Flor e seus dois maridos"; "Tenda dos milagres"; "Tereza Batista cansada de guerra"; "Pastores da noite"...), mas o fato é que eu nunca tinha lido um livro do escritor Jorge Amado. Recordei-me de alguns velhos comunistas como Niemayer, Kfouri e o próprio Jorge Amado, e seus nobres ideais. Dos meus amigos petistas pré-poder, verdadeiros revolucionários, e seus desencantos com a política atual. E de como as relações humanas tornaram-se mesquinhas, oportunistas e sórdidas. Como pode, em uma sociedade que supostamente evoluiu e aperfeiçoou-se, os problemas, mazelas, negligências, injustiças, vilanias, hipocrisias e descasos sociais abordados nesta bela obra escrita em 1937, estarem tão atuais. Não sou excessivamente religioso, mas é até compreensível a sucessão de tragédias que mancham os noticiários diariamente. Chega a provocar náusea a encenação política em todas as esferas do poder público; a letargia do "populacho" cada vez mais alienado pelos órgãos de imprensa e entretenimento; e a mera catalogação de tudo isso pelos pesquisadores acadêmicos, no mundo universitário apartado da realidade. Existe nesse momento, uma legião de menores abandonados nas ruas das cidades brasileiras. Cruzamos com eles todos os dias. Nossa sociedade hoje é mais grave e mais complicada. Negligenciamos demais nossas crianças e é inimaginável uma solução imediata e eficáz. Pode parecer clichê para alguns, mas o problema está aí, e as consequências são diárias. Os poucos "Capitães da Areia" que conseguiram algum alento para suas vidas na ficção, hoje fracassariam. Quem manda é o mercado, o qual comprou o sindicato, o partido político, as artes, e enquadraria até o bando do temido cangaceiro "Lampião", que no livro é um verdadeiro herói para um dos meninos penitentes e abandonados.
No final do livro, Zélia Gattai (mulher de Jorge Amado), confidenciou que o autor, quando escreveu essa obra, foi dormir com os meninos no trapiche para conhecer os detalhes e adquirir um "olhar de dentro". Falta-nos comprometimento e coragem. Fiquemos com os vagos discursos. Um abraço!
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Patrícia, terminei de ler o livro meu amor, queria lê-lo para você, que é uma verdadeira "Capitã da Areia", minha guerreira! Nada é justo nesse mundo. Dá até medo de viver. Tá tudo dominado pelas elites, e nossa chance é mínima. Somos mais que tudo isso, mas, não basta. Te amo!

Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

Seguro Desemprego


Uma discussão que ocorre por esses dias entre o Governo Federal e as principais Centrais Sindicais à respeito do seguro-desemprego, chama minha atenção pelo grau de cidadania (ou pela falta dela) em nossos dias, e como, às vezes, nos igualamos a quem tanto criticamos. As partes acima mencionadas pretendem elevar das atuais cinco para doze as parcelas a serem pagas a quem estiver desempregado. Porém, o Ministério da Fazenda, cumprindo com sua obrigação desanconselhou tal empreitada, alegando que o fundo que sustenta o seguro-desemprego deve apresentar déficit nos próximos anos, mesmo se mantidas as parcelas atuais. Ou seja - assim como a Previdência, esse serviço social também corre o risco de entrar em colapso futuramente. Recordamos com facilidade os tantos "assaltos" aos cofres da previdência, com seus "esquemas", "fantasmas", "Georginas" e tantos outros, e também do dinheiro imediato oferecido pelos governos quando instituições bancárias necessitam serem "salvas". Mas, surpreendentemente, quando trata-se de socorrer o trabalhador, os órgãos financeiros e econômicos cumprem seu papel de evitar um desajuste (muitas vezes motivados por fins eleitoreiros). Mas, por que razâo se omitem quando trata-se de evitar a quebra de um banco ou qualquer outra instituição econômica? Ou são silenciados à força pelo sempre coercitivo poder político, sempre altivo, poderoso, impune e livre de explicações pláusíveis. De certo, surgirão infindáveis explicações acadêmicas para os argumentos deste humilde blogueiro, mas - do alto de minha impaciência - darei as costas a todas elas. Se são tão sapientes em elucidar os nós da "coisa pública", resolvam essa equação para nós "coisas também públicas". Quanto custa pegar um ônibus, metrô, trem todos os dias para procurar trabalho; quanto tempo uma sola de sapato conserva se você o fizer à pé; e uma refeição entre uma procura e outra; e um curso de especialização; cópias de documentos; pagamentos para que seu curriculum fique por um tempo nos cadastros das agências de emprego; no aperitivo que você tomará para poder encarar sua família e mentir que está quase acertado em um emprego; na calça e camisa da promoção para parecer "apresentável ao novo empregador; etc? Nunca fui de "acender uma vela à Deus e outra ao Diabo", por isso, critico sempre qualquer conhecido que protela a entrega de sua Carteira de Trabalho" ao novo empregador, porque pretende receber as parcelas do seguro-desemprego (agregadas ao novo salário) mesmo estando empregado. Isso é falta de cidadania, e se igualar da mesma forma a quem te governa e privilegia os abastados em detrimento dos necessitados. Você que utiliza esta prática, não está levando nenhuma vantagem, pelo contrário, apenas enganando a si mesmo, porque o buraco meu irmão, é muito lá em cima. Um abraço!

Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

Leonera


Com o filme "Leonera", o cineasta argentino Pablo Trapero não apenas produz uma bela obra, como - de maneira sutil (evita com sucesso qualquer possibilidade de denúncia) - consegue abordar temas ácidos, nos remeter à reflexão e desnudar de forma surpreendente o (muito parecido com o nosso) sistema carcerário feminino argentino. A história gira em torno de uma mulher que desperta cheia de sangue. Ela descobre que algo muito grave aconteceu em sua casa e dois homens (seu namorado e o amigo dele) se encontram desfalecidos e cheios de golpes de facas. Ela vai para a prisão, acusada de matar um deles. Mas está grávida e é encaminhada a um pavilhão somente para gestantes e detentas com filhos menores de quatro anos. No início, com uma gestação de aproximadamente três meses, tenta interromper a gravidez, porém, vai se acostumando com a idéia de conceber uma criança na cadeia, em situação higiênica precária e sem educação oficial. Com a ajuda de uma detenta que torna-se sua amiga e amante (Marta), a qual também cria suas crianças no presídio, desperta um incrível e comovente instinto maternal e luta com todas as forças para criar seu filho atrás das grades. Confesso que já assiti a inúmeros filmes sobre o sistema prisional masculino, a até o excelente documentário que aborda o cotidiano de mulheres de detentos nas horas que antecedem os dias de visita ("Do lado de fora"), porém, nunca a uma obra que retratasse com tanta perfeição e crueza o dia-a-dia de instituições prisionais femininas. A personagem principal, com o desenrolar da trama, passa pelos percalços e mazelas que todo indivíduo é submetido quando relegado ao vazio do cárcere (violência, depressão, falta de entendimento, abandono estatal, etc.), porém, o grande paradoxo para mim é a explicitação da suposta fragilidade feminina, confrontada com a solidariedade, resistência, perseverança... Imagino o universo feminino com suas alterações hormonais, cuidados especiais, em um ambiente prisional insalubre, gerando um filho ou cuidando do mesmo até os quatro anos de idade, para em seguida, cumprir uma ordem judicial e entregá-lo para a família ou instituição oficial. À época da instalação da CPI do Sistema Carcerário, escrevi em um post neste blog que temia pelo fracasso dos trabalhos parlamentares diante de tema tão delicado e carente de providências pontuais. E, de fato, apesar da exposição positiva dos absurdos jurídicos cometidos e da mera expiação dos supostos infratores às leis penais, o cerne do problema não foi sequer resvalado: qual o objetivo de nossa sociedade com o encarceramento em regime fechado de quem está sendo investigado ou fora condenado criminalmente? A prisão representa a total depressão dos direitos de um cidadão, e causa uma mácula irreversível à sua pessoa, e à estrutura de sua família, portanto, o motivo para tal constrangimento e violência deve vir agregado a um "caminhão" de motivos nobres, tais como os hipócritas e desgastados termos usados habitualmente: recuperação, reeducação, reinserção social, ressocialização, e outros "res". Neste exato momento, centenas de mulheres estão cumprindo suas penas nos calabouços estatais, algumas com suas barrigas salientes ou crianças à tira-colo. Independentes dos crimes que tenham cometido, quem as mantém em cruéis condições de sobrevivência sem propósitos reais de cidadania e civilidade, pela simplista justitificativa de "punir" (no sentido rasteiro da palavra) é tão ou mais criminoso quanto elas, pois, na maioria das vezes, tiveram melhores oportunidades e educação para esse dicernimento. Voltando à "ficção", um belo filme, com direito a um plano final de emocionar, e voltarmos nossos olhos para as mamorras femininas aqui de nossa terra, onde literalmente choram mães, filhos e quem presenciar aquela crueldade. Um abraço!
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Repito aqui a frase do meu post de 1º de março do ano passado, quando dos trabalhos da CPI do Sistema Carcerário: "É preciso julgar o grau de civilização de uma sociedade visitando suas prisões." (Dostoiévski).

Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008

É Natal!



Papai Noel, Velho Batuta!

Papai Noel velho batuta, enjeita os miseráveis


eu quero matá-lo, aquele porco capitalista,


presenteia os ricos, cospe nos pobres,


presenteia os ricos, cospe nos pobres.


Mas nós vamos sequestrá-lo, e vamos matá-lo, por que?


aqui não existe natal, aqui não existe natal, Por que?


(grupo punk "Garotos Podres")

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Feliz natal!

É nossa a festa

Que era dia do criador.

Mesa farta

Mesa falta

É nossa hora

De esquecer a dor.

A hora é de luz

As estrelas no céu

São o lustre do teto

Que a todos seduz.

A hora é de festa,

Mas outros meninos

De outras manjedouras

Carregam sinos pequeninos

Em usinas e lavouras.

A hora é de festa

Na casa do patrão

E na casa do empregado.

Numa Jesus não se manifesta

Na outra não foi convidado.

(Sérgio Vaz, poeta e escritor)
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Esses dois textos tão distintos, traduzem minha empolgação com data tão comercial, a qual deveria ser de muita solidariedade. Quase ninguém se lembra do aniversariante, e ao contrário, cerram os olhos e consomem assustadoramente. Natal dos Shoping Centers, supermercados lotados, e enormes diferenças sociais e constrangimentos. Pais apreensivos, filhos ávidos por presentes, esmolas de quem "faturou em cima do seu irmão", e falta de senso crítico dos que aceitam as migalhas em forma de "doações" em favelas e cortiços. Mais um ano, mais um natal, tudo igual...



Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

Barack Obama e a bola 8

No dia 04 de novembro de 2008, os Estados Unidos da América elegeram seu primeiro presidente negro. É inegavel que trata-se de um algo relevante e surpreendente, principalmente pelo fato do país estar atravessando sua pior crise econômica e financeira desde a "grande depressão" dos anos 30. Historicamente é um grande feito; politicamente, nem tanto. Após o malfadado governo do atual presidente George Bush, não sera tão difícil superá-lo em administração. No início da campanha eleitoral, John Mc´Cain postou-se como representante da ala moderada do partido Republicano, e o democrata Obama posicionou-se de forma flexível - de acordo com o estado onde discursava. Mc´Cain endureceu seu discurso e cedeu espaço a sua ultra-conservadora vice Sarah Palin, ao passo que caía nas pesquisas de opinião. Por sua parte, apesar do lema de sua campanha (change=mudança), Obama não as fará de forma tão radical assim, basta inteirar-se sobre a sua atuação como senador por dois mandatos. O futuro presidente é deveras melhor preparado que o atual. Formou-se em Direito pela Universidade de Harvard; foi membro da igreja da Trindade Unida de Cristo, a qual prega uma "teologia da libertação negra", porém, afastou-se do reverendo Jeremiah Whight durante a campanha, quando adversários exploraram dubiamente um discurso do religioso como "anti-americano". Em referência ao combate à crise americana causada pela ganância de seus próprios cidadãos - vale lembrar que nos anos trinta o presidente Franklin Roosevelt (um dos mais respeitados presidentes democratas) levou oito anos para vencer a grande depressão. Ressalto, que mudança política radical seria se alguns outros candidatos concorrentes de Obama - como a negra Cyntia Mc Kinney, do Partido Verde, a qual defende o fim do investimento em guerras e que o governo seja mais presente na vida da população americana; ou como a latina anti-globalização e fã de Che Guevara Glória La Riva, do partido Socialismo e Libertação, a qual defende a implantação do socialismo como a "única resposta", que quer estatizar a saúde, legalizar imigrantes irregulares, acabar com o embargo à Cuba e levar o presidente Bush à julgamento (devido a guerra do Iraque) - tivessem uma votação ao menos "expressiva". Em suma, o radicalismo na vitória de Barack Obama para a presidência dos E.U.A. acentua-se mais pela cor de sua pele, do que pelo seu posicionamento político. Sua vitória é comemorada em quase todas as partes do mundo pelo fato dele ser negro. Até o diretor de cinema Spike Lee (o qual realizou obras maravilhosas como "Mais e melhores blues", "Faça a coisa certa" e "Malcolm X") extrapolou sua alegria dizendo que não acreditava que estivesse vivo para ver o dia em que um negro seria o presidente dos E.U.A. Felicidade justificável em um país onde o preconceito racial é escancarado, como nas declarações recentes do diretor do grupo racista que apóia a supremacia branca, e que cansou de pendurar negros em árvores ao longo de sua história "Ku Klux Klan", o qual afirmou que Obama é apenas "meio" negro, visto que foi criado em um "lar branco", porque seu pai negro o havia abandonado quando criança. Porém, Barak Obama não é nenhum Martin Luther King, Malcolm X ou mesmo Jesse Jackson. Não estão assumindo a direção do país um negro (presidente Obama) e uma mulher (secretaria de estado Hilary Clinton) e sim, dois democratas que sabem muito bem "jogar o jogo" do capitalismo. Ao menos, lá na parte norte da América, o inimigo racista é explícito e não velado, camuflado e covarde como no Brasil. Onde, de geração em geração, os afro-descendentes (não importando seu grau de miscinenação) sofrem discriminação implícita, disfarçada, recorrente, sem reação ou desaprovação na maioria das vezes. Dias atrás, observava um grupo de jovens abastados financeiramente, brancos, estudantes da FACCAMP (faculdade particular com altíssimas mensalidades, que pretende ser a "Harvard" brasileira, instalada dentro do campus da UNICAMP) jogando sinuca em um bar, quando um deles - ao errar a bola 8 - repetiu displicentemente: "tinha que ser! Meu avô, depois meu pai, sempre disseram que enquanto não matar a bola 8 não se ganha o jogo, ela é zicada, dá azar...), em alusão ao preconceito repetido até em um simples jogo, em referência a cor preta da bola. Por falar em preconceitos implícitos no cotidiano brasileiro, se Barack Obama tivesse sido eleito presidente do Brasil, um racista acalmaria outro dizendo: "calma, ele é um preto de alma branca..." O problema é que aqui o inimigo é mais "suave" e perigoso do que o estúpido e revanchista diretor da Klan. Um abraço!
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Mara: Obrigado, espero que isso se realize em breve!
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Camila: Espero encontrar você em um desses eventos, seria um grande prazer!
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Patrícia: Amor, realmente a poesia do Sérgio Vaz é contagiante, um beijo!
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Digão: o respeito é mútuo, a revolução continua, a reação está virando um monstro!
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Carlos: Penso como você, e tem coisas de qualidade sendo produzidas por lá!