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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Eternas "figuras" do Poder!


Na semana que passou, dois artigos publicados nos jornais me chamaram à atenção (fato raro hoje em dia), talvez não por causar espanto em meio a tanta mixórdia e sordidez da vida pública, mas por me fazer relembrar de um amigo em especial e das estórias que contava sobre sua família. Vamos aos artigos:

Luis Fernando Veríssimo nos brindou mais uma vez com seu talento e capacidade de dizer o simples, de maneira reflexiva e pontual, no artigo intitulado "Tiririca e Sarney", onde iniciou citando que certa vez Richard Nixon, defendeu a nomeação de um juiz reconhecidamente inadequado para a Corte Suprema americana com o argumento de que a mediocridade também precisava estar representada no tribunal. Na sequência, seguiu afirmando que todo tipo de cidadão deve ser representado numa democracia. Mais adiante, ressaltou que o recém empossado congresso brasileiro talvez seja o mais representativo da nossa história. No desenrolar da brilhante crônica, mencionou o senador Sarney eternizando-se no comando do Senado pelo seu poder de manobra e de conchavo, e completou dizendo que falar mal do Sarney é um pouco como falar mal de um velho tio excêntrico, mas cujas peripécias divertem a família. Tudo se perdoa e tudo se aceita com a frase: "que figura...". O indestrutível Sarney representa a persistência do gosto nacional por "figuras".

Outro artigo, do jornalista Carlos Brickmann, intitulado "A imundinha política", reproduzo aqui na íntegra: Ser aliado de Sarney garante no mínimo um bom emprego no setor elétrico. Ser adversário de Sarney significa encontrar obstáculos em qualquer caminho. O então governador do Amapá, João Capiberibe, do PSB, eliminou por lá, em 1995, as tais aposentadorias para governadores. É dele, também, a autoria da Lei da Transparência, que obriga a divulgação das contas públicas, em tempo real, na Internet. Mas é adversário de Sarney. Resultado: sua eleição para o Senado, em 2010, não valeu (nem a de sua mulher, Janete, para deputada federal). Ambos foram acusados de comprar dois votos por R$ 26,00 (vinte e seis reais), pagos em duas prestações, mais dois lanches. Baratinho, baratinho. Ainda mais considerando-se que o fato não aconteceu: um dos autores da denúncia admitiu ter comprado testemunhas para prejudicá-los. Mesmo assim, ambos continuam fora do Congresso.

O amigo que mencionei no início desse texto é Carlos Camilo Capiberibe, atual governador do Amapá, com quem estudei na PUC-Campinas nos anos 90, filho de João e Janete Capiberibe. Camilo estudava Ciências Sociais na UNICAMP, durante o dia e Direito na PUC, no período noturno. Costumava realizar um sarau de poesia com suas irmãs uma vez por semana em seu apartamento. Ouvi algumas das estórias de luta e resistência de sua família na região norte do país. Camilo e sua família, sei muito bem quem são; Sarney, em contrapartida, todos vocês sabem quem é. Um abraço!
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Obs.: Vem aí o PMB – Partido Militar Brasileiro, a sigla não está registrada mo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas já conta com estatuto e cerca de 5 mil pré-filiados nos 27 estados do País.


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O círculo vicioso das eleições

Com a vitória de Dilma Roussef para a presidência da república do Brasil encerra-se mais uma espetaculosa campanha política, a qual desde 1989, não era tão disputada e rasteira. Após breves conjeturas, seria a hora de reflexões, esperanças e merecido descanso do cidadão, extenuado pelo massacrante noticiário eleitoral. Primeira mulher a presidir o país; segunda política brasileira a ganhar a presidência do Brasil sem nunca ter disputado uma eleição anteriormente; fenomenal transferência de votos do presidente Lula a uma tecnocrata competente, mas desconhecida; receio inevitável ao imaginar o astuto e insípido Michel Temer vice-presidente e a avidez de seu partido (PMDB) por cargos e poder, etc. Nada diferente do que seria se o outro candidato tivesse ganhado a disputa (com o agravante de que seu partido possa de "vestais do cenário político", inclusive com a obsoleta cafajestagem de utilizar religião em assuntos laicos"). Porém, preocupa a impossibilidade da reflexão tão necessária e fundamental para a evolução dos principais interessados nesse acontecimento democrático: nós, o povo. Ocorre algo parecido com a diferença entre o cinema e a televisão. Ao terminar um bom filme no cinema o próprio "apagar das luzes" nos remete a reflexão, remoem-se as mensagens num saudável exercício evolutivo. Em contrapartida, mesmo assistindo a algo profundo na televisão, com o seu término, o processo de ponderação é interrompido abruptamente por uma nova atração. Partindo do disposto no parágrafo único do primeiro artigo da Constituição Federal, o qual diz que: "todo o poder emana do povo...", abordemos os direitos sociais previstos e tutelados por aquela carta (direito à educação; saúde; trabalho; moradia; lazer; segurança; previdência social; proteção à maternidade e infância, e a assistência aos desamparados), e vamos ao debate, às proposições, às cobranças, e brademos: estamos aqui! Por que assumirmos a posição de meros coadjuvantes nos processos eleitorais, meros expectadores do show de marketing político. Ao contrário disso, somos bombardeados imediatamente ao pleito por uma nova campanha. Toda a imprensa dedicou quase que exclusivamente seu espaço à biografia da futura presidente e as manobras que já se iniciaram visando as próximas eleições. E o objetivo principal disso tudo que seria nossa evolução social, e os meios de alcançá-la? A campanha para as prefeituras em 2012 já está à todo vapor: Netinho de Paula se lança candidato e força Luiza Erundina a lançar-se também. José Aníbal antecipa-se ao "cadáver insepulto" José Serra e diz que disputará a convenção do PSDB. E, para 2014 Aécio Neves (com sua raquítica biografia nem de longe comparável a de seu avô Tancredo Neves) sai fortalecido como candidato; Beto Richa assanha-se; Alckmin não convence nem o mais incauto dos cidadãos com o aceno positivo às costas de Serra, ao ouvi-lo dizer que a briga está apenas no começo. E estamos envolvidos novamente em disputas eleitorais, relegando o sentido disso tudo à segundo plano. Basta, quero sinceramente sentir a política no meu cotidiano e não apenas o subproduto que ela infelizmente produz. Um abraço!     

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Eleições 2010


As eleições em solo brasileiro, regulam historicamente com o próprio surgimento do país. Segundo especialistas no assunto, o livre exercício do voto surgiu em terras brasileiras com os primeiros núcleos de povoadores, logo depois da chegada dos colonizadores. Foi o resultado da tradição portuguesa de eleger os administradores dos povoados sob domínio luso. Os colonizadores portugueses, mal pisavam a nova terra descoberta, e passavam logo a realizar votações para eleger os que iriam governar as vilas e cidades que fundavam. Portanto, são aproximadamente 500 anos de sufrágios de toda natureza, e falar sobre conjeturas, estratégias, projeções, seria "chover no molhado". Prefiro dar minha contribuição de forma muito pessoal, dizendo como sinto esse último pleito eleitoral. Lembro-me quando criança, de colecionar santinhos em dia de eleições, e tenho gravado em minha memória as siglas ARENA e MDB, o que só viria entender o que significavam tempos depois. Sentir política de verdade, somente com a abertura política e o fim do bi-partidarismo, e conseqüentemente, com o surgimento de diversas agremiações políticas. O encantamento de menino com pouco mais de dez anos se deu – talvez por um espírito precocemente revolucionário – com a criação do Partido dos Trabalhadores, com seus primeiros filiados advindos do sindicalismo, da intelectualidade, das artes, etc. Durante muitos anos o PT representou tudo o que havia de isento e contestador na política brasileira, e sua militância era quase um sacerdócio. Recordo-me das primeiras conquistas eleitorais, como a prefeitura de Fortaleza/CE e de São Paulo/SP, e também dos primeiros problemas. Senti na pele todos os preconceitos por levantar a bandeira de um partido político, cujo principal líder era um trabalhador não alfabetizado. O alento vinha das dezenas de intelectuais de primeira grandeza, que de certa forma davam sustentação à causa e hierarquicamente se subordinavam ao tal líder. Mais tarde, em 1988, já com pequena noção política, assisti ao surgimento do PSDB, dissidência "das cabeças pensantes" e intelectualidade do PMDB, e seu imediato posicionamento "em cima do muro"; não corriam riscos desnecessários e flutuavam em sua cômoda posição de centro esquerda. Poucos anos depois, ingressei no serviço público paulista no início do monopólio do PSDB no estado de São Paulo, e apesar de muita admiração pelo único tucano – que para mim – não tinha alma social democrata (Mário Covas), senti a infelicidade de estar subordinado aos "vestais de fachada" e seus discursos suaves e atitudes desleais. A identificação com o PT se dava principalmente pela convivência quase pacífica de várias tendências conflitantes, co-existindo pacificamente dentro da mesma agremiação política. E tudo era "à flor da pele", às claras, às vezes vazando seus embates ingenuamente para a imprensa. Combatíamos ferozmente a tendência "Articulação", de onde vieram José Dirceu e outros "à direita" do partido; porém, nos respeitávamos. Nunca me envolvi burocraticamente com o partido, mas sempre compartilhava de seus rumos e ideais. Até o seu final, após à chegada ao poder nacional, com o "Lulismo" substituindo o "Petismo". Esclareço que não me tornei um anti-petista, e não fui enganado pelo engodo de atribuir o início da corrupção do Brasil ao tal "mensalão", essa prática sempre existiu e continua existindo em todas as esferas públicas. Como eram inexperientes e tolos, os petistas apontados pelo "mensalão" foram execrados por continuar uma atividade que existia desde o império. Ao longo de sua história, o PT foi se profissionalizando e tornando-se mais parecido com os outro partidos, preparando-se para uma eventual tomada do poder, e conseqüentemente, perdendo seus integrantes mais ilustres, relegados a pecha de utópicos e apeados da caminhada rumo ao objetivo inicial. E, quando José Dirceu finalmente profissionalizou o PT, cacifando-o à tomada de poder, abriu uma mácula na história petista, a qual insiste em não cicatrizar, fazendo dissidentes e ressentidos, os quais fazem muita falta. Mesmo com essa opção equivocada que o partido tenha tomado, não critico e nem perco totalmente a admiração, ignorando sua história, afinal, foi uma opção, que de certa forma funcionou para chegar ao poder, nada diferente do que os outros fizeram. Não comungo com essas práticas, mas não sou ingênuo nem hipócrita para dizer que isso não ocorre diariamente, guardada as devidas proporções, na vida de todo brasileiro. Porém, o partido perde muito de sua história, atentem-se para o número de candidatos ex-petistas concorrendo ao cargo de Presidente da República: Marina Silva (fundadora do PT); Plínio (fundador do PT); Zé Maria (fundador do PT); e ironicamente, o partido sustentando a candidatura de uma histórica integrante do PDT (Dilma).

Talvez por isso tudo, que eu tenha sentido um frescor reconfortante em ver a candidatura de Marina Silva, e sua ideologia sustentável. Um inevitável receio inicial em ver acontecer tudo de novo (até a escolha de um empresário bem sucedido para vice) se desfaz com suas palavras firmes e o mesmo preparo para chegar ao topo. Talvez por ter feito parte do time que chegou ao poder, mas não compartilhou com suas praticas espúrias, tendo encontrado outro caminho. Lamento apenas (relembrando dos bons amigos dos tempos de militância) que ela tenha deixado o partido, sem lutar pela sua reconstituição inicial. Mas, tenho muito prazer em rever o surgimento de uma liderança quase paradoxal, com um revigorante objetivo metódico-selvagem (na acepção mais pura da palavra) para uma iminente chegada ao poder.

Mal comparando, comecei a ouvir a banda Titãs ainda pré-adolescente e senti toda a sua pureza e vigor. Ao longo do tempo a banda foi perdendo seus integrantes mais importantes, e bandeando-se para o Pop. Até hoje acompanho a banda, e sinto sua trajetória atrelada a minha própria, com aprendizados, erros, perdas, frustrações e adaptações. Contudo, a banda permanece – agora com sua nova identidade – natural para esse mundo de expiações. Ao contrário de muitos fãs iniciais, procuro acompanhar os novos lançamentos e rumos dos remanescentes titãs, para compreender e aceitar minha própria sorte e trajetória; mas, diante das acomodações da vida, extravaso no bom e sempre contestador punk rock irredutível. Um abraço.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Fé!


Haiti, antes do terremoto

... no líder carismático que conduzirá;
... no conhecimento adquirido prá sobrepujar;
... no Deus que não existe, mas ajudará;
... na força física passageira que exigirá;


... no pedido prá não sofrer;
... na crença de não desanimar;
... na comida que não pode faltar;
... no remédio pra remediar;
... na cura que vai chegar;
... na montanha que se moverá;
... prá gente poder passar;
... na nossa or(ação) que nos acorrentará,
... na in(ação) companheira que apascentará,



... no redentor cogumelo de poeira e de sujeira, que surgirá,
... da hecatombe! que redimirá!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

PEC dos vereadores


(suplente de vereador reza durante votação da PEC)


Este homem da fota acima, vestido formalmente, em posição cristã-ocidental, instropectivo em seu agradecimento, estampando uma alegria incontida, é um suplente de vereador de uma comarca qualquer. Encontra-se na ocasião em pleno Congresso Nacional, e sua indisfarçável euforia explica-se pela aprovação da impopular "PEC (projeto de emenda constitucional, instrumento pelo qual altera-se a Constituição do Brasil em assuntos não classificados como cláusulas pétreas, imutáveis) dos vereadores". Pressume-se que sempre que a carta magna de um país for alterada; modificada; mexida ou habilmente violada - o que deveria ocorrer raramente - fosse em explícito, comprovado e irrefutável benefício da sociedade, e, em consequência, do cidadão comum. Evidentemente, não é  caso desse arranjo amparado em crescimento demográfico, o qual catastroficamente irá onerar os cofres públicos já tão usurpados. Muitas cidades brasileiras irão "ganhar" novos vereadores com tal aprovação. Hipócritas oportunistas vão dizer frente aos holofotes, que o número atual de vereadores, primeiros representantes em contato direto com a "epiderme social", é insuficiente para atender às necessidades dos citadinos. Puro engodo travestido de civilidade! A felicidade desse futuro edil aí da fotografia só se explicaria por um dos  dois supostos motivos: um irremediável êxtase em imaginar os projetos de lei que irá propor em plenário, quando empossado para um cargo que preparou-se muito para exercer abnegadamente em prol de uma parcela de sua comunidade, a qual irá "sentir-se" representada nos próximos anos; ou, uma irresponsável comemoração ao vislumbrar o cargo bem remunerado, que agrega poder ao patrimônio pessoal e financeiro de quem o exerce, com verbas injustificáveis de representação e outras "cosas" impublicáveis. Infelismente, sabemos que eleição transformou-se em "loteria", onde os apostadores marcam seus bilhetes nas urnas já sabendo que irão perder. E oportunistas lançam-se inconsequentemente na aventura excitante , ávidos pelo dinheiro público, com raríssimas exceções. Somente na semana passada filiaram-se a partidos políticos os seguintes nomes: Romário (PSB), o qual declarou estar contente em ingressar no "PSDB"; o "BBB Cléber Bambam", que declarou que o que mais o desagrada em política é a lavagem de dinheiro, já que tem tanta gente precisando; Edmundo (PP); Maguila (PTB); Vampeta (PTB); Popó (PRB); o ator Anfré Gonçalves (PMN); o cantor Sérgio Reis (PR); o cantor uruguaio "Gaúcho da fronteira (PTB)... Ressalto que qualquer cidadão pode e deve (se tiver convicção, boa intenção e coerência) pleitear um cargo político, não pretendo discriminar ninguém, porém, de "boas intenções" maquiando devaneios imorais, já estamos saturados. A atuação do vereador nos dias de hoje é deveras limitada, tanto pela parca matéria sobre a qual é permitido legislar; quanto pelos interesses escusos da maioria. Os Prefeitos, condutores vorazes da "máquina pública", encontram pouquíssima resistência em aprovar seus projetos. Com a "chave" dos cofres públicos nas mãos, formam bases de apoio enormes e desmontam as inconsistentes "oposições", com maneiras - digamos - misteriosas. De certa forma, trata-se da reedição do bi-partidarismo no Brasil, com a base aliada relembrando a antiga ARENA (o partido do sim); e a cambaleante oposição relembrando o MDB (o partido do sim, senhor!). Está difícil sentir a política nos dias atuais, até mesmo por parte dos partidos mais isentos. Um exemplo prático: O Psol - partido que respeito, mas não simpatizo - elegeu uma vereadora combativa e intelectualmente preparada nas eleições de 2004, a qual dentre incontáveis lugares, fez campanha em uma área periférica aqui da cidade de Campinas/SP. A grande maioria das casas em áreas pobres não possui documentação regular, escritura registrada, etc, quando muito, guardam registros de negócios feitos em cartórios impróprios, acreditando ter a posse de documento definitivo e legal. Um pequeno grupo dessa área de favela visitada pela candidata, relatou-me que procurou pela citada vereadora após sua eleição, mas conseguiu falar somente com seu educado assessor, o qual deu explicações plausíveis sobre a "incompetência" para poder solucionar o caso, o qual não era de sua alçada. Indignado, um dos moradoes esbravejou enquanto me relatava o fato: "a vereadora tomou café na minha casa na campanha, e agora não resolve nosso caso". Essas pessoas estão cansadas de explicações, querem ações, e que alguém lhes apontem o caminho e saiba mais sobre suas reais necessidades, além de meras formalidades e discursos vãos. Coincidência ou não, a vereadora não se reelegeu nas eleições seguintes. Um abraço!
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Dia desses, caminhava com a companheira por um Shopping Center de Campinas, quando lembramos da necessidade dela adquirir um compasso para o estudo da Geometria. Dirigimo-nos às papelarias existentes no próprio shopping, para realizar a aquisição. Surpreendentemente, pelo menos para mim, nenhuma delas vendia tal utensílio. Patrícia apelou então para um esquadro, o qual a auxiliaria igualmente na tarefa. Em vão. Transferidor então, nem ouviram falar. Nas paredes das "papelarias" (inclusive uma grande rede) badulaques, futilidades, pequenos minos... Sorte de Gilberto Gil que cantou: "a Bahia já me deu, graças à Deus, régua e compasso..."         

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Sobre dores e amores!



... Algumas pessoas que passaram em minha vida - de importâncias e em circunstâncias diferentes - eram unânimes em ressaltar uma pseudo qualidade: a facilidade em traduzir a vida, essa mesma, pessoal e cotidiana; desvelando tabus familiares; cauterizando feridas; aplacando mágoas indeléveis; explicitando a dor alheia; pontuando "pontos de vista" conflitantes, os quais alicerçam razões equivocadas que acreditamos ter. E, por essas "verdades absolutas", de que nos julgamos portadores, despendemos toda nossa força para sustentá-las, persistindo inconscientemente no erro, perpetuando a malquerença. O poeta indagou em uma de suas canções: "prá onde vai o amor, quando o amor acaba?" E respondeu complacentemente em outra composição: "...amores serão sempre amáveis!" Isso leva-nos a crer na consciência derradeira, em um sentimento superior e final, que - mesmo após fúrias, revanches, insanidades - poupará a consequência inocente do irresponsável ato de nos relacionarmos. Ressalto também, que apesar de outra expressão ser muito usada pelos poetas, a desprezo completamente. O (para mim) paradoxal clichê: "o amor e o ódio se irmanam". O ódio é excludente, frágil, egoísta, covarde e induz ao erro, e quase sempre, atinge somente quem o emana, particularmente, o ignoro! A dor que sinto, cortante, lenta e cotidiana, é a dor que divido com João Caetano. A mesma dor que atinge João Pedro. A que alcança Maria Clara e seu irmão com nome de poeta, o qual nem conheço. A dor que encontra amparo e se estanca nos frágeis ombros de Heitor, que nem sabe que carrega esse nome forte prá suportar e dividir com seu pai - mesmo inconscientemente - tudo o que a vida insiste em machucar lancinantemente, portando-se bravamente, citando o nome de seus irmãos, como se convivesse com os mesmos. Mas, quem irá traduzir a vida e "trazer à luz", espíritos opacos e obscurecidos. O poeta também disse: "... a dor da gente não sai no jornal". Um abraço!
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Patrícia, se eu não te amasse tanto assim, talvez perdesse o sonho dentro de mim, e vivesse na escuridão...  Obrigado!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Política, para mim!

(Suplicy, conversando com moradores da comunidade "Olga Benário")


...tenho grande temor quando vejo a maioria da população jovem do Brasil, ignorando e negligenciando a política, individualizando egoisticamente sua conduta, alienando-se em entretenimentos vazios, assistindo a tudo sem postura crítica, acostumando-se a escândalos e malversação do bem público, com lamentável apatia. Realmente não compreendo quando pessoas descrevem seu perfil no site de relacionamentos "Orkut", no item que questiona sua participação política, assinalando a opção "apolítico" (como se isso fosse possível), orgulhando-se e procurando eximir-se de qualquer culpa pelo mal andamento de nosso país. Admito que é muito difícil não desanimar e capitular frente a tantas más notícias, discursos demagógicos, práticas escusas. Nunca os políticos se pareceram tanto, e é raro destacar matizes que fujam do cinza dos nossos representantes em todas as instâncias. O ateniense Péricles discursou com orgulho aos seus concidadãos, após a guerra do Peloponeso: "Nós somos o único povo a pensar que um homem alheio à vida política, não deve ser considerado como um cidadão tranqüilo, mas como um cidadão inútil".

Escrevi as palavras acima, neste mesmo espaço, em fevereiro de 2008, em um texto intitulado "Política, prá que"? Apoio-me nelas para tentar justificar a recusa em não rabiscar sequer palavra sobre Sarney , crise das casas legislativas, etc... Agradeço aos elogios que chegaram em meu e-mail, agregados à pedidos de pronúncia sobre o tema acima citado. "Sapecar tinta" - expressão usada por um jornalista amigo - e escrever sobre o tema, parece-me redundante no momento. Seria apenas mais um a apontar o óbvio da roubalheira generalizada e herança colonial de usurpação do público pelo privado. Sinto-me mais útil tentando "sentir a política", não esmorrecer e não aliar-me a argumentos ingênuos e irresponsáveis sobre fechamento de casas legislativas, volta de ditaduras e outros desvarios. Prefiro, sinceramente, discutir em nível não especializado e relatar o que percebo como cidadão comum sobre política partidária, partindo de minhas próprias impressões e experiências pessoais. Tento responder para mim, os questionamentos que me chegam, tais como: o que vale à pena em política hoje em dia, para que serve eleições... Possuo um passado de fidelidade às minhas convicções políticas, sempre apoiei, debati e votei no mesmo partido político. Nunca lancei mão do "voto útil" mesmo para evitar que um mal caráter qualquer ganhasse alguma eleição. Mas sinto-me como o amigo, no belíssimo texto publicado por Roberto Barbato Jr., "Homem não chora", em seu blog "Lápis Impreciso":


Lembro-me de ter lido, no início da década de 1990, a entrevista de um jornalista que estava prestes a assumir um cargo público em São Paulo. Seu pai, àquela época já falecido, foi um comunista bastante ativo. Costumava dizer aos filhos (um dos quais, filósofo marxista) que quando alguma coisa estivesse errada, seria preciso olhar em direção ao Kremlin. Um dia, o jornalista resolveu romper com o comunismo. Abandonara as convicções que sempre deram sentido à vida do pai. Ideologicamente, distanciou-se dele e do irmão. Na entrevista, o tal jornalista contou que tivera um sonho bastante significativo a respeito de seu rompimento com as tendências de esquerda: num quarto branco, sóbrio, sem cores, ele levantava o pai pelo colarinho e gritava:- Você me enganou! Você me enganou!O pai, provavelmente ciente de que escolhemos ideologias por afinidades e devemos recusá-las quando desejamos, apenas respondeu:- Homem não chora! Homem não chora! Hoje, quando olho para trás, relembro minhas opções políticas sem arrependimento. Mas, quando vejo que os representantes que ajudei a eleger servem para perpetuar o que há de mais atrasado na política brasileira e ainda reivindicam o monopólio da moralidade pública, confesso que tenho vontade de chorar. É nessas horas que lembro da lição do velho comunista: homem não chora!


Acho esse texto elucidativo o bastante, o que dispensa maiores explicações. Então, voltemos para o que se tornou a política atual depois do fim das ideologias, dos partidos políticos independentes, da fidelidade partidária sem ameaça judicial, das discussões escrupulosas e utópicas, das formações de careteres juvenis, etc. Percebo a política atual como mera troca de interesses escusos; más intenções; aplicação de meios injustificáveis e inaceitáveis para atingir fins, deixando um rastro de sujeira no meio do caminho. Tudo foi nivelado pelo mais rasteiro patamar, dos representantes públicos ao eleitorado. A sensação que posso compartilhar é a de que tudo se individualizou, os membros de nossa comunidade buscam uma recompensa pessoal para cada ato. A contrapartida que cada um exige para qualquer atitude que transpasse os limites de sua residência é egoísta e limitada, uma sociedade de consumo que perdeu o freio e desce ladeira abaixo rumo ao interesse escuso. Nas últimas eleições municipais fui procurado por uma candidata à vereadora que - incensando meu conhecimento político - pediu o meu apoio em sua campanha. Não me fiz de rogado e firmei uma permuta, à moda da política moderna, e pedi subsídios para um projeto social que almejo realizar há tempos, em troca do tal apoio. Andei por todos os bairros da cidade de Campinas, e a experiência foi enriquecedora. Conversei com pessoas de todos os níveis por cerca de quatro meses e atesto que a visão política atual individualizada é desconhecida do público em geral. As pessoas não têm convicções claras de representação política e não se sentem representadas de fato por ninguém. Votam por pequenos mimos; por escracho; para ver alguém pobre e humilde prosperar; por se enganar quanto à trajetória e caráter de postulantes que o marketing político encobre habilmente; por culto à pseudo celebridades; e raramente, por certeza da representação satisfatória. Porém, apesar desses equívocos o povo permanece sábio, e no fim das quase infindáveis e gratificantes conversas eu ouvia o insofismável argumento de que qualquer um que caísse no "ninho de serpentes" das casas legislativas, não teriam força para mudar sozinhos o status quo. Poderia ficar por horas relatando experiências sobre essa empreitada e constatando que, no "acomodar das abóboras" o povo está cansado de engodos, e desgastado demais com tanta decepção. Contudo, particularmente, continuo persistindo, acreditando no imponderável, aliando utopia com coisas concretas, buscando o equilíbrio de forças. Há alguns dias, uma favela da zona sul paulistana foi desapropriada e as famílias foram literalmente jogadas ao relento. O escritor Ferréz iniciou uma luta inglória para viabilizar alento àquelas pessoas (o que pode ser melhor relatado em seu blog, "linkado" aí ao lado), e, buscando todo tipo de ajuda possível, telefonou para o senador Eduardo Suplicy, o qual chegou ao local em 40 minutos, dirigindo um veículo FIAT/DOBLÔ, fazendo os desalojados "sentirem" a política da forma como sinto atualmente. Da única forma que interessa e vale à pena, "lutando contra o Leviatâ", e levando conforto a quem precisa. O resto é desprezível e vil, como todo mundo já conhece. Um abraço!




quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Contadores de histórias



Há poucos dias (exatamente há dez dias) completei os emblemáticos 40 anos de vida, e dentre reflexões, pensamentos, melancolias, agradecimentos e afins, percebi que realmente o espírito torna-se mais maleável com o conhecimento adquirido ao longo dos anos, e as costas calejam, invariavelmente, com as "pancadas da vida". Justamente em meio a esses desvarios, defronte ao painel que indicava as opções de minha arte preferida, resolvi dar uma chance ao "mago", pelo qual nutri uma antipatia intrinsica por anos. Explico, chamou-me a atenção o título do filme "Verônika decide morrer", mas quando li a sinopse e atentei-me para o fato da película ser uma adaptação de um livro do badalado Paulo Coelho, fui acometido por uma "catatonia" instantânea. Recordando a data festiva (40) e o desgastado brocardo: "a vida começa aos quarenta", decidi por de lado um suposto preconceito, ignorar uma intuição inata que repele os oportunistas e relembrar algumas composições que o "alquimista" fez em parceria com o ídolo de sempre Raul Seixas, e aceitei o desafio. Ao final do filme, conclui que se Veronika decidir morrer, realmente morrerá: de tédio. O velho "dom Paulete", como se referiu um dia Raul Seixas ao seu amigo continua o mesmo das colunas sobre fábulas - quase sempre orientais - com seus finais felizes que invariavelmente nos remete ao redundante moral da história... que publica em alguns jornais. Soube ao sair do cinema que este filme foi indicado a uma categoria do Oscar americano (só poderia ser mesmo), e aumentei minha indignação. A obra trata-se de uma armadilha de clichês e más interpretações, atenuados pela beleza da protagonista Sarah Michelle Gellar, que desponta em meio ao feio e evidente lugar comum da previsibilidade. Reflito sobre a quantidade de livros vendidos por Paulo Coelho; do seu sucesso na Europa e Estados Unidos; de sua petulância em postular um lugar na Academia Brasileira de Letras, mas, resigno-me frente aos fatos. Não tem como negligenciar o momento de carência, medo e ignorância pelo qual a sociedade contemporânea atravessa; e à lembrança de que José Sarney assenta seu traseiro em uma das cadeiras da ABL (embasado por seus "Marimbondos de Fogo"), onde já sentou-se Machado de Assis. Também assisti na semana passado ao filme "O contador de Histórias", que aborda a vida de Roberto Carlos Ramos (foto acima), o qual - por uma singela ingenuidade de sua genitora - passou a infância na famigerada FEBEM, e só teve sua tragetória de desventuras e agruras modificada por cruzar - em um momento de sua vida - com a francesa Margherit Duvas, que o alfabetizou e o levou para a França, de onde voltou para ensinar na própria FEBEM, e tornar-se, porteriormente, o maior contador de história do mundo. Esse filme - se comparado ao adaptado do livro do "mago" tinha tudo para cair no oceano de clichês, porém, sobrevive com galardia, e nos oferece uma obra com recursos lúdicos que descrevem com leveza, uma trama tão ácida. Essa, ao meu ver, é a diferença entre contadores de histórias e contos-do-vigário (ou do mago). E saber diferenciá-los (apreciá-los ou repelí-los) vai da ótica e intenção de cada um. No final do filme "Verônica decide morrer" um psiquiátra desvela toda a saturada trama ao revelar que mentiu sobre uma suposta doença terminal que a protagonista acreditava ter. Mentiu para que ela desse o verdadeiro valor a cada dia de sua vida e o vivesse como se fosse o último. Não precisava faltar com a verdade, à moda do mago, para dar o devido valor à vida, bastava mergulhar no universo dos adolescentes da FEBEM, como fez a francesa na vida de Roberto Carlos Ramos, denotando assepcia e dignidade à obra e à própria vida, atitudes tão em falta no nosso cotidiano. Um abraço!





quinta-feira, 9 de julho de 2009

Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia!


Há aproximadamente quinze dias, foi noticiado nos jornais "Correio Popular" e "Diário do Povo" de Campinas/SP o seguinte acontecimento: um morador de rua foi agredido violentamente por um estudante de medicina (o qual estava acompanhado por mais dois amigos e fugiu logo após a covardia, em um veículo AUDI/A3), na saída de um shopping, porque - segundo o próprio agressor, ele não gostou do modo como o pedinte olhou para ele. Posteriormente localizado e encaminhado a uma Delegacia de Polícia, o estudante "esclareceu" que cometeu o ato de selvageria porque aquele mendigo "não acrescentaria nada à sociedade, no futuro", sendo liberado em seguida. Recordo-me de um providencial texto de Marina Colassanti, intitulado "Uma Crônica", o qual nos desperta para o fato de que a gente se acostuma a certos acontecimentos em nossa vida, mas não deveríamos. As reiteradas notícias padronizadas que nos chegam sobre esse tipo de canalhice (do índio Galdino - confundido com um mendigo - queimado em Brasília; à empregada doméstica violentamente espancada no Rio de Janeiro - segundo seus agressores - confundida com uma prostituta), são sempre protagonizadas pelos filhos da classe média alta, motivados pelo mesmo desprezo aos seres humanos menos favorecidos. Assistimos ao noticiário, ficamos estarrecidos por alguns minutos e voltamos ao nossos afazeres, aguardando à próxima novidade macabra. Relegamos a gravidade dos atos cometidos por esses biltres à fatos corriqueiros e continuamos injustos, nos tornando insensíveis. Façamos um exercício de reflexão e desconstrução das notícias frias e superficiais contadas pela grande imprensa sobre esses inaceitáveis crimes cometidos e tratados como "curiosidade", à partir desta agressão ocorrida aqui em Campinas. O referido shopping está instalado em uma área nobre, e é frequentado por pessoas abastadas que tiveram as melhores oportunidades (estudo particular; convênio privado de plano saúde; boa alimentação; segurança pública que funciona...). O estudante agressor frequenta uma faculdade de medicina pública de alta qualidade - onde as pessoas bem nascidas acima citadas têm acesso. Os mais pobres pagam por faculdades privadas de qualidade questionável (comprovadamente inferiores às públicas) e ainda seus impostos, os quais sustentam a universidade pública do playboy. Depois de medicado, apurou-se que o suposto mendigo agredido adentrou a pararia do shopping, consumiu e pagou com cartão de débito, apresentando inclusive ticket comprobatório. Falando um pouco de sua vida afirmou que frequentou até o quarto ano de direito em uma faculdade privada de ensino superior, não a concluíndo por falta de recursos. O beócio estudante de medicina, assim que se formar, certamente trabalhará em hospitais públicos ou em alguma clínica - da profusão de convênios médicos menores - que visam as classes "C" e "D", agora interessantes pelo recente poder de compra adquirido, atendendo justamente a pessoas que - segundo ele - "não acrescentarão nada a sociedade futuramente". O crime de lesão corporal dolosa (a agressão) será apurado pelo Distrito Policial da área, onde cabe outra reflexão. Até alguns anos atrás, Campinas possuía doze distritos policiais, e estudos para a eminente instalação de outros para suprir a carência de segurança pública. Áreas carentes como a região do Jd. São Marcos e do Terminal Campo Grande seriam as próximas beneficiadas pelo governo estadual, existindo até uma frágil iniciativa da instalação de uma delegacia na primeira área citada, mais precisamente no bairro "Recanto da Fortuna", até hoje não concluída. Os mais abastados se "anteciparam" e viabilizaram a instalação do 13o. Distrito Policial no coração da área nobre, a qual inclui o tal shopping, e a casa do playboy agressor, em detrimento da eterna espera dos mais pobres das áreas críticas e violentas. Abstraindo a inconsistência do argumento, e tentando enxergar pelo prisma do descelerado estudante de medicina, ignorando que um mendigo é ser humano, que as pessoas merecem respeito, e outros "ensinamentos" que certamente recebeu de seus pais; imaginemos o mesmo fato invertendo os personagens. O "mendigo" seria execrado publicamente, condenado pela justiça e pela opinião pública, e o fato teria uma repercussão bem maior que a atual. Órgãos de imprensa bradariam que a vilência estaria atingindo níveis alarmantes, que isso não poderia continuar acontecendo, e comandantes da força policial seriam entrevistados. É pertinente citar que a revista "Caros Amigos", do mês de maio/2009, tráz como matéria de capa, uma reportagem sobre "Por que a justiça não pune os ricos" (pág.13). Para auxiliar e enriquecer nosso debate, reproduzo um trecho que explicíta a opinião do juiz criminal Sérgio Mazina sobre o tema: "... a justiça brasileira é constituída para não ser popular. Em sua avaliação, desde a formação da legislação, há uma preocupação muito maior com a preservação patrimonial em detrimento da integridade física. Isso constribui para a criminalização das camadas mais baixas da população, mais propensas - por sua condição social - a cometerem delitos contra o patrimônio. O Código Penal Brasileiro criminaliza a pobreza". Colassanti, ainda diz em seu belo texto: "A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto se acostumar, se perde de si mesma! Um abraço!

domingo, 28 de junho de 2009

Michael


Lembro-me de um trecho do livro "Pergunte a quem conhece", do rapper Thaíde, onde o mesmo relata sua trajetória, e um determinado momento especial que se sucedeu em sua pré-adolescência. Thaíde nos remete a um dia de total letargia onde assistia televisão descompromissadamente em seu barraco, ao lado da família, quando inesperadamente surgiram na tela do humilde televisor, alguns negros americanos dançando uma dança esquisita (break), no programa do jornalista Goulart de Andrade. Desse dia em diante, passou a frequentar a estação do metrô "São Bento" em São Paulo, a imitar os dançarinos e a buscar avidamente mais informações sobre o hip-hop. Nunca mais parou, tornando-se um dos ícones da cultura periférica brasileira. Recordo-me deste fato porque foi de forma muito parecida que tive o mesmo contato inicial com o maior ídolo pop da minha geração. Tudo o que "apreendíamos" era através da televisão, numa remota pré-adolescência no interior paulista. Numa madrugada perdida, ainda criança, assiti a um filme melodramático, sobre a amizade de um garoto com um ratinho, só para ouvir a musica Ben de Michael Jackson. E, anos mais tarde - no início dos anos 80, surge aquele cara cantando afinadamente e dançando de forma surpreendente. Eram tempos pós "Panteras Negras", de uma incipiente fase do genuíno ritmo funk soul, com os concursos de equipes de danças, e posteriormente a chegada do break . Michael, de forma contundente, limpou, lustrou e agregou assepcia àquela irreverente maneira de expressão, transformando os vídeos-clipes (massantes e relegados a 2ª classe de divulgação) à arte final dos discos em vinil recém-lançados. Desde os 8 anos de idade, Michael dirigia seus irmãos na imperdível obra do grupo Jacksons Five, e no auge de sua carreira nos levou ao êxtase com trabalhos como Thriller, Beat it, Billie Jean, etc. Era também o autor da música We are The World, tema de um clip estrelado por vários artistas americanos. Sua obra e seu talento eram incontentáveis, e poderia ficar por horas citando genialidades do cantor, compositor e dançarino - que criava coreografias e não perdia o frescor da música negra contundente e contagiante. Para mim foi uma perda irreparável (não como força de expressão, pois todas as perdas são irreparáveis), mas com convicção de que certas figuras não deveriam sair do nosso meio nunca. Atentem-se para o paradoxo de que certas figuras tachadas como desajustadas, trazem o equilíbrio necessário para a nossa vida em sociedade. Particularmente, até me irritava com algumas declarações de Clodovil Hernandes, mas, em contrapartida, adorava quando ele - às vezes ingenuamente - dizia verdades que não temos coragem de dizer, ainda mais em plenário, como a irrefutável de que Maluf é ladrão. Renato Russo declarou em um momento de maturidade que viver nosso momento cultural era deveras pesado para ele, e nos deixou dezenas de reflexôes em forma de letras musicais. Cazuza levou uma curta, intensa e conturbada vida, e mais nos ajudou do que foi feliz, ao retirar por vezes o manto da hipocrisia que nos cobre e nos abafa. Como não associar os dramas pessoais de Jackson, com a questão do racismo, cruel e excludente, que canalhas não cansam de ignorá-la. A imprensa mundial desconstruiu a imagem do ídolo com inúmeras exposições de sua vida pessoal e suas excentricidades (a famosa bolha onde instalou-se por alguns dias; a tentativa de congelamento; as acusações de pedofilia; a mutilação do próprio corpo; os casamentos; os filhos; etc.), porém, não resvalaram na infância sofrida, na sociedade americana que avassala a vida dos mais sensíveis, que não têm tanta estrutura para suportar. Michael, não gostava de sua imagem, tinha obcessão por embranquecer sua pessoa, e segundo familiares, tinha dificuldade em olhar-se no espelho. Não era louco, e sim vítima de uma cultura de massa que cultua o branco, o clean. Talvez não tivesse a consciência que os anos 80 foram anos difíceis para afro-descendentes, e que sua música contribuiu muito para superá-los, e começar a resistência no início dos 90 com o rap do Racionais, Thaíde e suas consequências. Gilberto Gil cantou: "Bob Marley morreu, porque além de negro era judeu; Michael Jackson ainda resiste, porque além de branco ficou triste!" Não mais, Michael, descanse em paz! Um abraço!

terça-feira, 3 de março de 2009

Capitães da Areia


Neste final de semana passado, li o livro "Capitães da Areia", do escritor Jorge Amado. Não consegui parar de lê-lo desde as primeiras linhas. É impressionante como essas coisas se repetem em minha vida, sempre que tudo "está que é só escombros", alguma idéia ou boa leitura aparece como por encanto e me arrebata, levando à reflexão. Por mero acaso esse livro veio parar em minhas mãos. Veio através de minha mulher Patrícia, uma legítima "Capitã da Areia", que certamente não tinha a consciência da obra que carregava. Lera apenas as trinta e seis páginas iniciais e dissera-me com convicção: "estou achando esse livro a sua cara". Como não tenho conseguido dormir regularmente, cerrei os sentidos para as maldades cotidianas, para a fome e para a desesperança, e degustei o citado livro até o final, com um inevitável "nó na garganta". Um turbilhão de lembranças me acompanharam durante a leitura, numa estranha catarse. Lembrei-me da infância difícil e rude dos meus pais; das injustiças sociais; do poder infindável das elites e seu aparato para manter tudo obtuso como está, há séculos, nessa nossa iniqua e desleal sociedade. Lembrei-me do terrível percalço que se passou comigo, e de como me fechei para tudo que estava desmoronando (perda de trabalho, de minha casa, de minha dignidade) e escrevi meu livro em seis meses, porque segundo Clarice Lispector: existe o direito ao grito! Lembrei-me da vocação de minha irmã mais velha para a justiça social. De quando ela leu esse mesmo livro, há aproximadamente vinte e cinco anos atrás - o qual deve estar até hoje na estante da casa de meus pais - e ficou radiante, com o ímpeto de querer mudar alguma coisa, com a excitação e alegria que os livros sempre trouxeram a ela.
Não sei explicar o motivo, talvez seja pela comodidade de conhecer sua obra através das adaptações para cinema e televisão ("Gabriela Cravo e Canela"; A morte e a morte de Quincas Berro-D´água"; "Dona Flor e seus dois maridos"; "Tenda dos milagres"; "Tereza Batista cansada de guerra"; "Pastores da noite"...), mas o fato é que eu nunca tinha lido um livro do escritor Jorge Amado. Recordei-me de alguns velhos comunistas como Niemayer, Kfouri e o próprio Jorge Amado, e seus nobres ideais. Dos meus amigos petistas pré-poder, verdadeiros revolucionários, e seus desencantos com a política atual. E de como as relações humanas tornaram-se mesquinhas, oportunistas e sórdidas. Como pode, em uma sociedade que supostamente evoluiu e aperfeiçoou-se, os problemas, mazelas, negligências, injustiças, vilanias, hipocrisias e descasos sociais abordados nesta bela obra escrita em 1937, estarem tão atuais. Não sou excessivamente religioso, mas é até compreensível a sucessão de tragédias que mancham os noticiários diariamente. Chega a provocar náusea a encenação política em todas as esferas do poder público; a letargia do "populacho" cada vez mais alienado pelos órgãos de imprensa e entretenimento; e a mera catalogação de tudo isso pelos pesquisadores acadêmicos, no mundo universitário apartado da realidade. Existe nesse momento, uma legião de menores abandonados nas ruas das cidades brasileiras. Cruzamos com eles todos os dias. Nossa sociedade hoje é mais grave e mais complicada. Negligenciamos demais nossas crianças e é inimaginável uma solução imediata e eficáz. Pode parecer clichê para alguns, mas o problema está aí, e as consequências são diárias. Os poucos "Capitães da Areia" que conseguiram algum alento para suas vidas na ficção, hoje fracassariam. Quem manda é o mercado, o qual comprou o sindicato, o partido político, as artes, e enquadraria até o bando do temido cangaceiro "Lampião", que no livro é um verdadeiro herói para um dos meninos penitentes e abandonados.
No final do livro, Zélia Gattai (mulher de Jorge Amado), confidenciou que o autor, quando escreveu essa obra, foi dormir com os meninos no trapiche para conhecer os detalhes e adquirir um "olhar de dentro". Falta-nos comprometimento e coragem. Fiquemos com os vagos discursos. Um abraço!
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Patrícia, terminei de ler o livro meu amor, queria lê-lo para você, que é uma verdadeira "Capitã da Areia", minha guerreira! Nada é justo nesse mundo. Dá até medo de viver. Tá tudo dominado pelas elites, e nossa chance é mínima. Somos mais que tudo isso, mas, não basta. Te amo!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Seguro Desemprego


Uma discussão que ocorre por esses dias entre o Governo Federal e as principais Centrais Sindicais à respeito do seguro-desemprego, chama minha atenção pelo grau de cidadania (ou pela falta dela) em nossos dias, e como, às vezes, nos igualamos a quem tanto criticamos. As partes acima mencionadas pretendem elevar das atuais cinco para doze as parcelas a serem pagas a quem estiver desempregado. Porém, o Ministério da Fazenda, cumprindo com sua obrigação desanconselhou tal empreitada, alegando que o fundo que sustenta o seguro-desemprego deve apresentar déficit nos próximos anos, mesmo se mantidas as parcelas atuais. Ou seja - assim como a Previdência, esse serviço social também corre o risco de entrar em colapso futuramente. Recordamos com facilidade os tantos "assaltos" aos cofres da previdência, com seus "esquemas", "fantasmas", "Georginas" e tantos outros, e também do dinheiro imediato oferecido pelos governos quando instituições bancárias necessitam serem "salvas". Mas, surpreendentemente, quando trata-se de socorrer o trabalhador, os órgãos financeiros e econômicos cumprem seu papel de evitar um desajuste (muitas vezes motivados por fins eleitoreiros). Mas, por que razâo se omitem quando trata-se de evitar a quebra de um banco ou qualquer outra instituição econômica? Ou são silenciados à força pelo sempre coercitivo poder político, sempre altivo, poderoso, impune e livre de explicações pláusíveis. De certo, surgirão infindáveis explicações acadêmicas para os argumentos deste humilde blogueiro, mas - do alto de minha impaciência - darei as costas a todas elas. Se são tão sapientes em elucidar os nós da "coisa pública", resolvam essa equação para nós "coisas também públicas". Quanto custa pegar um ônibus, metrô, trem todos os dias para procurar trabalho; quanto tempo uma sola de sapato conserva se você o fizer à pé; e uma refeição entre uma procura e outra; e um curso de especialização; cópias de documentos; pagamentos para que seu curriculum fique por um tempo nos cadastros das agências de emprego; no aperitivo que você tomará para poder encarar sua família e mentir que está quase acertado em um emprego; na calça e camisa da promoção para parecer "apresentável ao novo empregador; etc? Nunca fui de "acender uma vela à Deus e outra ao Diabo", por isso, critico sempre qualquer conhecido que protela a entrega de sua Carteira de Trabalho" ao novo empregador, porque pretende receber as parcelas do seguro-desemprego (agregadas ao novo salário) mesmo estando empregado. Isso é falta de cidadania, e se igualar da mesma forma a quem te governa e privilegia os abastados em detrimento dos necessitados. Você que utiliza esta prática, não está levando nenhuma vantagem, pelo contrário, apenas enganando a si mesmo, porque o buraco meu irmão, é muito lá em cima. Um abraço!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Leonera


Com o filme "Leonera", o cineasta argentino Pablo Trapero não apenas produz uma bela obra, como - de maneira sutil (evita com sucesso qualquer possibilidade de denúncia) - consegue abordar temas ácidos, nos remeter à reflexão e desnudar de forma surpreendente o (muito parecido com o nosso) sistema carcerário feminino argentino. A história gira em torno de uma mulher que desperta cheia de sangue. Ela descobre que algo muito grave aconteceu em sua casa e dois homens (seu namorado e o amigo dele) se encontram desfalecidos e cheios de golpes de facas. Ela vai para a prisão, acusada de matar um deles. Mas está grávida e é encaminhada a um pavilhão somente para gestantes e detentas com filhos menores de quatro anos. No início, com uma gestação de aproximadamente três meses, tenta interromper a gravidez, porém, vai se acostumando com a idéia de conceber uma criança na cadeia, em situação higiênica precária e sem educação oficial. Com a ajuda de uma detenta que torna-se sua amiga e amante (Marta), a qual também cria suas crianças no presídio, desperta um incrível e comovente instinto maternal e luta com todas as forças para criar seu filho atrás das grades. Confesso que já assiti a inúmeros filmes sobre o sistema prisional masculino, a até o excelente documentário que aborda o cotidiano de mulheres de detentos nas horas que antecedem os dias de visita ("Do lado de fora"), porém, nunca a uma obra que retratasse com tanta perfeição e crueza o dia-a-dia de instituições prisionais femininas. A personagem principal, com o desenrolar da trama, passa pelos percalços e mazelas que todo indivíduo é submetido quando relegado ao vazio do cárcere (violência, depressão, falta de entendimento, abandono estatal, etc.), porém, o grande paradoxo para mim é a explicitação da suposta fragilidade feminina, confrontada com a solidariedade, resistência, perseverança... Imagino o universo feminino com suas alterações hormonais, cuidados especiais, em um ambiente prisional insalubre, gerando um filho ou cuidando do mesmo até os quatro anos de idade, para em seguida, cumprir uma ordem judicial e entregá-lo para a família ou instituição oficial. À época da instalação da CPI do Sistema Carcerário, escrevi em um post neste blog que temia pelo fracasso dos trabalhos parlamentares diante de tema tão delicado e carente de providências pontuais. E, de fato, apesar da exposição positiva dos absurdos jurídicos cometidos e da mera expiação dos supostos infratores às leis penais, o cerne do problema não foi sequer resvalado: qual o objetivo de nossa sociedade com o encarceramento em regime fechado de quem está sendo investigado ou fora condenado criminalmente? A prisão representa a total depressão dos direitos de um cidadão, e causa uma mácula irreversível à sua pessoa, e à estrutura de sua família, portanto, o motivo para tal constrangimento e violência deve vir agregado a um "caminhão" de motivos nobres, tais como os hipócritas e desgastados termos usados habitualmente: recuperação, reeducação, reinserção social, ressocialização, e outros "res". Neste exato momento, centenas de mulheres estão cumprindo suas penas nos calabouços estatais, algumas com suas barrigas salientes ou crianças à tira-colo. Independentes dos crimes que tenham cometido, quem as mantém em cruéis condições de sobrevivência sem propósitos reais de cidadania e civilidade, pela simplista justitificativa de "punir" (no sentido rasteiro da palavra) é tão ou mais criminoso quanto elas, pois, na maioria das vezes, tiveram melhores oportunidades e educação para esse dicernimento. Voltando à "ficção", um belo filme, com direito a um plano final de emocionar, e voltarmos nossos olhos para as mamorras femininas aqui de nossa terra, onde literalmente choram mães, filhos e quem presenciar aquela crueldade. Um abraço!
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Repito aqui a frase do meu post de 1º de março do ano passado, quando dos trabalhos da CPI do Sistema Carcerário: "É preciso julgar o grau de civilização de uma sociedade visitando suas prisões." (Dostoiévski).

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

É Natal!



Papai Noel, Velho Batuta!

Papai Noel velho batuta, enjeita os miseráveis


eu quero matá-lo, aquele porco capitalista,


presenteia os ricos, cospe nos pobres,


presenteia os ricos, cospe nos pobres.


Mas nós vamos sequestrá-lo, e vamos matá-lo, por que?


aqui não existe natal, aqui não existe natal, Por que?


(grupo punk "Garotos Podres")

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Feliz natal!

É nossa a festa

Que era dia do criador.

Mesa farta

Mesa falta

É nossa hora

De esquecer a dor.

A hora é de luz

As estrelas no céu

São o lustre do teto

Que a todos seduz.

A hora é de festa,

Mas outros meninos

De outras manjedouras

Carregam sinos pequeninos

Em usinas e lavouras.

A hora é de festa

Na casa do patrão

E na casa do empregado.

Numa Jesus não se manifesta

Na outra não foi convidado.

(Sérgio Vaz, poeta e escritor)
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Esses dois textos tão distintos, traduzem minha empolgação com data tão comercial, a qual deveria ser de muita solidariedade. Quase ninguém se lembra do aniversariante, e ao contrário, cerram os olhos e consomem assustadoramente. Natal dos Shoping Centers, supermercados lotados, e enormes diferenças sociais e constrangimentos. Pais apreensivos, filhos ávidos por presentes, esmolas de quem "faturou em cima do seu irmão", e falta de senso crítico dos que aceitam as migalhas em forma de "doações" em favelas e cortiços. Mais um ano, mais um natal, tudo igual...



terça-feira, 25 de novembro de 2008

Barack Obama e a bola 8

No dia 04 de novembro de 2008, os Estados Unidos da América elegeram seu primeiro presidente negro. É inegavel que trata-se de um algo relevante e surpreendente, principalmente pelo fato do país estar atravessando sua pior crise econômica e financeira desde a "grande depressão" dos anos 30. Historicamente é um grande feito; politicamente, nem tanto. Após o malfadado governo do atual presidente George Bush, não sera tão difícil superá-lo em administração. No início da campanha eleitoral, John Mc´Cain postou-se como representante da ala moderada do partido Republicano, e o democrata Obama posicionou-se de forma flexível - de acordo com o estado onde discursava. Mc´Cain endureceu seu discurso e cedeu espaço a sua ultra-conservadora vice Sarah Palin, ao passo que caía nas pesquisas de opinião. Por sua parte, apesar do lema de sua campanha (change=mudança), Obama não as fará de forma tão radical assim, basta inteirar-se sobre a sua atuação como senador por dois mandatos. O futuro presidente é deveras melhor preparado que o atual. Formou-se em Direito pela Universidade de Harvard; foi membro da igreja da Trindade Unida de Cristo, a qual prega uma "teologia da libertação negra", porém, afastou-se do reverendo Jeremiah Whight durante a campanha, quando adversários exploraram dubiamente um discurso do religioso como "anti-americano". Em referência ao combate à crise americana causada pela ganância de seus próprios cidadãos - vale lembrar que nos anos trinta o presidente Franklin Roosevelt (um dos mais respeitados presidentes democratas) levou oito anos para vencer a grande depressão. Ressalto, que mudança política radical seria se alguns outros candidatos concorrentes de Obama - como a negra Cyntia Mc Kinney, do Partido Verde, a qual defende o fim do investimento em guerras e que o governo seja mais presente na vida da população americana; ou como a latina anti-globalização e fã de Che Guevara Glória La Riva, do partido Socialismo e Libertação, a qual defende a implantação do socialismo como a "única resposta", que quer estatizar a saúde, legalizar imigrantes irregulares, acabar com o embargo à Cuba e levar o presidente Bush à julgamento (devido a guerra do Iraque) - tivessem uma votação ao menos "expressiva". Em suma, o radicalismo na vitória de Barack Obama para a presidência dos E.U.A. acentua-se mais pela cor de sua pele, do que pelo seu posicionamento político. Sua vitória é comemorada em quase todas as partes do mundo pelo fato dele ser negro. Até o diretor de cinema Spike Lee (o qual realizou obras maravilhosas como "Mais e melhores blues", "Faça a coisa certa" e "Malcolm X") extrapolou sua alegria dizendo que não acreditava que estivesse vivo para ver o dia em que um negro seria o presidente dos E.U.A. Felicidade justificável em um país onde o preconceito racial é escancarado, como nas declarações recentes do diretor do grupo racista que apóia a supremacia branca, e que cansou de pendurar negros em árvores ao longo de sua história "Ku Klux Klan", o qual afirmou que Obama é apenas "meio" negro, visto que foi criado em um "lar branco", porque seu pai negro o havia abandonado quando criança. Porém, Barak Obama não é nenhum Martin Luther King, Malcolm X ou mesmo Jesse Jackson. Não estão assumindo a direção do país um negro (presidente Obama) e uma mulher (secretaria de estado Hilary Clinton) e sim, dois democratas que sabem muito bem "jogar o jogo" do capitalismo. Ao menos, lá na parte norte da América, o inimigo racista é explícito e não velado, camuflado e covarde como no Brasil. Onde, de geração em geração, os afro-descendentes (não importando seu grau de miscinenação) sofrem discriminação implícita, disfarçada, recorrente, sem reação ou desaprovação na maioria das vezes. Dias atrás, observava um grupo de jovens abastados financeiramente, brancos, estudantes da FACCAMP (faculdade particular com altíssimas mensalidades, que pretende ser a "Harvard" brasileira, instalada dentro do campus da UNICAMP) jogando sinuca em um bar, quando um deles - ao errar a bola 8 - repetiu displicentemente: "tinha que ser! Meu avô, depois meu pai, sempre disseram que enquanto não matar a bola 8 não se ganha o jogo, ela é zicada, dá azar...), em alusão ao preconceito repetido até em um simples jogo, em referência a cor preta da bola. Por falar em preconceitos implícitos no cotidiano brasileiro, se Barack Obama tivesse sido eleito presidente do Brasil, um racista acalmaria outro dizendo: "calma, ele é um preto de alma branca..." O problema é que aqui o inimigo é mais "suave" e perigoso do que o estúpido e revanchista diretor da Klan. Um abraço!
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Mara: Obrigado, espero que isso se realize em breve!
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Camila: Espero encontrar você em um desses eventos, seria um grande prazer!
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Patrícia: Amor, realmente a poesia do Sérgio Vaz é contagiante, um beijo!
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Digão: o respeito é mútuo, a revolução continua, a reação está virando um monstro!
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Carlos: Penso como você, e tem coisas de qualidade sendo produzidas por lá!

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Mostra Cultural da Cooperifa!



Djalma Oliveira, o escritor Ferréz, o poeta Sérgio Vaz e uma estudante de história que não recordo o nome



Marcelino Freire (poeta), Sacolinha (escritor), Sérgio Vaz (poeta e escritor) e Ferréz (escritor)





Ontem fui até a Casa Popular de Cultura do M´Boi Mirim, na zona sul da capital paulista, conferir o debate: "Existe uma escrita periférica?", com mediação do poeta Marcelino Freire, e com a participação dos debatedores Ferréz (escritor), Sacolinha (escritor) e Sérgio Vaz (poeta), e a impressão não poderia ter sido melhor. Acompanho aqui da minha cidade a revolução literária e as agitações culturais da periferia de São Paulo, mas nada como ir até lá e constatar o quanto isso é realidade. A cooperifa está completando 7 anos de luta, e é reconfortante verificar ao vivo o quanto ela já produziu de cultura de qualidade. Antes do debate, ouvimos um CD com diversos poemas de artistas locais, e afirmo que trata-se de ótima literatura. O debate foi elucidativo, provocante e de alto nível, é indizível a satisfação de atestar algo tão positivo em um lugar tão carente de investimento estatal. Talvez por isso mesmo, que o resultado é tão puro e satisfatório, é arte brasileira legítima, onde literalmente - segundo palavras do próprio poeta simpatissíssimo Sérgio Vaz - as palavras sangram! Um abraço!

Obs.: O evento com várias atrações de literatura, dança, cinema, debates, música..., o qual durou quase uma semana, não foi noticiado em nenhum órgão da imprensa paulista.


quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Ensaio sobre a cegueira.


Semana passada assisti ao filme “Ensaio sobre a cegueira”, do diretor Fernando Meirelles, baseado no livro do escritor José Saramago. A estória é sobre uma epidemia de cegueira branca que atinge a humanidade e leva as pessoas a explorarem seus instintos primitivos. O enredo desenvolve-se focando um grupo de pessoas atingido pela enfermidade, o qual busca a sobrevivência em meio ao caos, liderados por uma mulher imune à tal doença. Não obstante a qualidade do filme e sua imediata e contundente capacidade de nos remeter à mais profunda reflexão sobre nossas vidas, chamou-me à atenção o raciocínio sobre a cegueira “branca”. O preto seria a ausência de luz, impedindo a visualização; e o branco exatamente o excesso de matizes, de cores, o que levaria igualmente à cegueira. Seria o “ver demais” e “enxergar de menos”. Uma espécie de miopia do senso crítico, um astigmatismo social. Impossível não comparar com nossa visão adestrada pelos meios de comunicação de massa e os últimos acontecimentos. Um fato histórico ocorreu dias atrás no centro da cidade de São Paulo. As polícias civil e militar – pela primeira vez na história – enfrentaram-se violentamente sob o olhar neo-liberal do governador do estado. Por trás da simples e superficial “cobertura” da imprensa, há relevantes e pontuais observações. A polícia civil, pela primeira vez desde a sua fundação, reivindica - seriamente - melhores salários e condições de trabalho. Mesmo razoavelmente organizado, com pouco aprofundamento político, o movimento por si só, trata-se de uma evolução. Um grande número de profissionais da carreira policial civil está participando ativamente dos protestos. O que antes era tratado dentro da própria instituição como "bobagem", "perda de tempo", agora é encarado com comprometimento. É público que as polícias não são vistas de forma positiva pelos olhos da sociedade, muito pelo seu passado de "braço armado" da classe dominante e abastada, mantenedora do status quo, sendo o órgão repressor e avalista do autoritarismo. A mudança radical está no resultado de enquetes promovidas por órgãos de imprensa, que atestam o apoio da população aos protestos dos policiais. Esse é o momento da polícia civil enterrar de vez seus equivocados serviços prestados à ditadura militar, guinando sua atuação de polícia judiciária para perto da população, como deve ser. Para os que acham isso deveras utópico para um órgão público tão complicado e arraigado ao retrocesso, atente-se para uma faixa erguida por um grupo de "tiras" durante a passeata que redundou no confronto com a P.M., estampada pelos principais jornais de São Paulo, "se você não quer brigar pelo seu salário, é porque não está precisando dele", em clara alusão aos servidores atrelados à corrupção, que realmente não dão a devida importância aos seus vencimentos oficiais e à persistente greve. A polícia militar, por sua vez, continuou a servir de tropa de choque do governo, despreparada e irresponsável, ao participar do conflito em área pública, movimentada, colocando em risco os passantes, não avaliando seu papel dentro do processo democrático, nem durante e nem após a confusão. O governador, ratificando uma equivocada posição tomada pelos políticos que vieram de um passado de luta pela democracia, os quais abominam ser chamados de fracos e vacilantes pelos truculentos de plantão, determinou que se repreendese a passeata à força, sem diálogo, numa clara demonstração de falta de sensibilidade política, à moda "tucana", que enfrenta radicalmente às vistas da imprensa, e compõe e faz acordos nos bastidores. Apesar dos oportunismos, sindicalistas profissionais, discursos equivocados, trata-se de uma real evolução, apesar de parte da imprensa noticiar apenas como um distúrbio. Resta-nos acompanhar com olhos imparciais e atentos, e colaborar para o avanço democrático deste órgão público tão carente de ações sociais e relevantes. O que ocorrerá lentamente, devido ao enorme período de letargia que seus servidores atravessaram, porém, com a intervenção social, para cobrar os trabalhos e apoiar as reivindicações, esse processo pode surpreender. Alguém conseguiria fazer um exercício, e imaginar ser tratado com cordialidade e cidadania ao chegar em uma delegacia de polícia? Ou de imaginar uma greve efetiva e pontual de policiais civis apanhando da P.M. Basta equacionar essas "ilusões de ótica", e fazermos nossa parte. Um abraço!
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P.s.: O adolescente desequilibrado e possessivo, tomou de assalto o apartamento de sua ex-namorada, inconformado com o rompimento do romance, e a fez refém - juntamente com uma amiga. Parte da imprensa, com a falácia do "dever de informar", espetacularizou e confundiu, contribuindo para o desfecho trágico. Até quando isso irá ocorrer, com a nossa anuência e nenhum questionamente?

terça-feira, 5 de agosto de 2008

De volta ao calabouço da av. Zaki Narchi

Quando inicia-se um processo judicial, tudo pode ocorrer às partes envolvidas. A defesa é reduzida aos ritos previsíveis, automatizados e fugazes das audiências forenses. Dependendo de como o “monstro de papéis timbrados” vai tomando forma, reduz-se vertiginosamente as chances de defesa do acusado. Em primeira instância, há um “justiçamento” incessante, e somente à partir da segunda instância da justiça, passa-se a configurar-se um julgamento propriamente dito. Pertinente esclarecer o significado dado a dois verbetes da nossa língua, conforme os dicionários mais populares: justiça: “a virtude de dar a cada um aquilo que é seu”, e justiçar: “punir com a morte ou com suplício”. Isso tudo já me enojou o bastante para perder mais tempo com esse espetáculo dos “semi-deuses” togados, e de certa forma, essa luta contra o “leviatã”, é uma luta particular, da qual tenho convicção que sairei vencedor; ou ao menos, causarei alguma avaria nesse injusta, cruel, e covarde estrutura estatal. Porém, o que cabe a mim relatar é que depois de dois anos da minha inclusão no Presídio Especial da Polícia Civil, quando organizava aos poucos minha vida, e estancava as feridas familiares causadas pelo trauma do encarceramento, fui surpreendido novamente com uma ridícula reinclusão no P.E.P.C., referente ao mesmo processo, retornando ao calabouço da av. Zaki Narchi. Uma nova decisão de um juiz de segunda instância, pôs fim a esse novo martírio, após 22 dias, alegando novamente que não havia motivo para a prisão. Mas, minha intenção primordial é narrar de que forma reencontrei o presídio e os penitentes, atestando a ineficiência desse modelo punitivo, supostamente de recuperação, a que me referi no livro que escrevi, do qual disponibilizei alguns capítulos nos posts iniciais desse blog. A estrutura física do presídio está mais deteriorada, suja e insalubre. “Polaco” depois de 13 anos recluso naquela “masmorra” foi libertado, e como eu pressagiava no capítulo que escrevi sobre ele, o presídio perdeu uma importante parcela de “urbanidade”. Até a hora da refeição na “boqueta” (também descrita em outro capítulo do livro) está mais tensa e desorganizada. O lugar continua dominado pelo ócio naquele campo infértil de martírio humano. Os urubus continuam pousando na caixa d´água da Penitenciária Feminina da Capital. O ar continua pesado, causando o estranho efeito do corpo mover-se – fugindo da depressão – e o espírito chegar apenas alguns segundos depois, trazendo de volta a consciência e a vigilância. É impressionante viver isso, aquele lugar continua surreal. Os evangélicos continuam sectários e os espíritas resignados. Delegada Maria agora não ocupa mais o templo religioso para suas aulas. Por causa da falta de interesse dos detentos, agora ministra suas aulas em pé, no pátio, andando entre as “bancas”, discursando sobre cidadania, direitos e deveres ao vento, lutando muito para “arrancar” as assinaturas necessária para a continuidade do seu trabalho naquele estabelecimento prisional. Em uma quarta-feira, dia de visitas, três juízes corregedores estiveram no presídio. Acompanhados de dois funcionários, adentraram a velha biblioteca improvisada (e agora mais abandonada). Indaguei a um interno sobre a razão da presença das autoridades e ele respondeu-me que tratava-se de uma visita de praxe por causa da CPI do Sistema Carcerário. Alguns poucos detentos conversaram com os apáticos juízes, porém, focalizaram equivocadamente o que mais interessa aos presos, a execução criminal e a progressão de regime, em detrimento daquela inútil forma de expiação humana. A indústria da punição não pode parar, aos olhos da alienada massa de encarcerados, que segue desarticulada, mal informada, urrando as injustiças durante o dia, e clamando aos céus pela liberdade à noite, embalada pelo bonito hino dos evangélicos: ...”você tem valor, o espírito santo se move em você!” Mesmo que através da inércia da vida entre muralhas. Um abraço!

terça-feira, 29 de abril de 2008

Sinestesia

Poucas pessoas, no começo do século XIX, precisavam de um publicitário para lhes dizer o que elas queriam (John Kenneth Galbraith). Ao longo do tempo, isso mudou gradativamente, até chegarmos aos nossos dias de total subserviência à sociedade da "representação" e impessoalidade. O "mundo virtual", criado para diminuir distâncias, quando manipulado habilmente, impõe hiatos intransponíveis às relações humanas. Empresas prestadoras de serviços, com o sofismável argumento de querer facilitar o contato do cliente com quem lhe oferece o produto, criaram os maquiavélicos "call centers", onde o contato ocorre apenas através das ondas invisíveis da comunicação à distância, redundando no inacreditável desprezo dessas empresas para com seus clientes. Tente uma comunicação com as empresas de telefonia, por exemplo. Institucionalizamos o estelionato. Nossos representantes nas casas legislativas se blindam de tal maneira, que um contato pessoal "à moda antiga" parece uma ofensa. Mas, seus "sites" e endereços eletrônicos – elaborados e pensados por "marketeiros políticos" – parecem convidativos, com perfis combatentes, e fotografias estratégicas, porém, ao tentar um contato, o máximo que o eleitor e principal interessado conseguirá, será receber periodicamente informativos inúteis de participações políticas questionáveis, chavões e "lugares comuns". As relações pessoais tornaram-se tão superficiais, que têm-se que tomar muito cuidado com o que se diz ou escreve para não comprometer-se de alguma maneira, ou "passar uma imagem negativa". Não importa que você seja um imbecil, um hipócrita, ou que sua inteligência seja extremamente "tímida", basta que você seja bem assessorado e estude o que vai dizer antes de comunicar-se. Os discursos frenéticos e apaixonados dos transparentes alunos dos cursos de história e sociologia nos "bares da vida" de outrora, deram espaços para orgulhosos, promissores e desconfiados jovens ostentando camisetas bonitas de cursos da moda como "midialogia", "publicidade e mercado", ou do intrigante "marketing político". O mundo invisível e virtual vai tomando vulto, e aos poucos vamos nos acostumando a obedecer, nos movermos e agregarmos esse modo de vida à nossa existência, onde tudo precisa ser interpretado, onde nossos sentidos não mais percebem primariamente, com alguma reflexão. No livro do escritor americano John Steinbeck, "As vinhas da ira", lavradores que desbravaram as áridas terras do estado de Oklahoma como arrendatários, e devido às más colheitas que conseguiam em solo tão pobre, foram contraindo empréstimos que tornaram-se impossíveis de serem saldados, indignavam-se com a perda da posse de suas propriedades para tal instituição financeira, e em um dos diálogos, um dos lavradores conscientiza-se que não sabe nem sequer com quem reclamar:
- Mas essa é nossa terra, nós a cultivamos, fizemos ela produzir. Nascemos aqui e queremos morrer aqui.
- É pena, sentimos muito, a culpa é dos bancos.
- Mas os bancos são dirigidos por homens.
- Não, vocês estão enganados, um banco é mais que um simples banco, é um monstro. Os homens fizeram os bancos, mas não os sabem controlar.
- Então vou matar o diretor do banco, o presidente.
- É, mas dizem que o banco recebe ordens do leste.
- Então, quem devo matar?
- Bem, talvez não haja a quem matar.
Sempre gostei de escrever, e algumas vezes, utilizava - mesmo inconscientemente - algumas figuras de linguagem para enriquecer o texto, ou para torná-lo menos óbvio, porém, naquela época, a sinestesia (transferência de percepções da esfera de um sentido para a de outro) era empregada para construir pensamentos, não para desconstruir convicções. Os ouvidos ouviam; as mãos sentiam; e os olhos viam e apreendiam, livres e desobstruídos. E um bom "olho no olho", valia mais que mil palavras. Um abraço.